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Diálogos com Ruy Duarte de Carvalho – painel VI Histórias de Angola

Durante os dias 10 e 11 de dezembro de 2015, teve lugar, na galeria Quadrum, o colóquio Diálogos com Ruy Duarte de Carvalho, integrado no ciclo Paisagens Efémeras. Publicamos as comunicações, antecipando a futura publicação online dos artigos resultantes do colóquio. 

 

Cátia Miriam Costa, Alexandra Dias Santos, Inês Ponte e Rafael Coca. Cátia Miriam Costa, Alexandra Dias Santos, Inês Ponte e Rafael Coca.

 

Dia 11 – Histórias de Angola 

 

Moderação – Inês Ponte 

 

Cátia Miriam Costa. Vou lá visitar pastores: Um diálogo entre antropologia e literatura?

Com este trabalho pretendemos analisar a especificidade da obra de Ruy Duarte de Carvalho, em que a forma ensaística assume amiúde características literárias. No caso em estudo, Vou lá visitar pastores, o próprio autor assume o regresso à literatura oral, tão importante na construção identitária e histórica. Estabelecendo a ponte entre diferentes conceções de mundo, o autor constrói narrativas simples e belas na forma, revelando, em simultâneo, conteúdos complexos como a organização e as relações sociais, económicas e políticas de um povo. Assente num diálogo permanente entre simplicidade e complexidade, entre o princípio e o fim das coisas, entre literatura e antropologia, Ruy Duarte de Carvalho deixou uma obra com características distintivas, problematizando formas e conteúdos. Em Vou lá visitar pastores, a esta característica permanente da obra do autor, encontramos um outro elemento não menos importante, o relato de uma etnia, caracterizada pela insubmissão e distância face ao poder formal, anteriormente relatado por outros autores e com expressão literária e antropológica.

 

Alexandra Dias Santos. O conto “As águas do Campembáua” e o romance Predadores, de Pepetela – esboço de comparação para uma reflexão sobre modernidade, nação e identidade.

Algures no Sul de Angola, pastores veem o seu acesso aos pastos da estação seca impedido por uma longuíssima vedação, que delimita e impede o acesso a terras que antes eram de uso comunitário. Eis o enredo comum ao conto As águas do Campembáua de RDC e ao romance Predadores, de Pepetela. A forma como nas duas narrativas é solucionado o conflito, porém, apresenta-se muito diferente, apontando para duas formas distintas de entender o destino das formações que RDC apelida de identidades colectivas parcelares. Pretende-se nesta apresentação explorar essas diferenças, contextualizando-as numa discussão em curso sobre a nação angolana e a modernidade.

 

Rafael Coca. Um certo olhar Kuvale para a história colonial do sul de Angola: possibilidades e alteridades através da obra antropológica de Ruy Duarte de Carvalho.

A relativamente exígua produção historiográfica dedicada à história da população pastoril Kuvale, à qual RDC dedicou boa parte de seus trabalhos antropológicos, inscrevem-na numa narrativa organizada segundo categorias espácio-temporais e culturais relativas a sistemas políticos supostamente mais abrangentes, sejam eles o regime colonial ou o Estado nacional angolano. Em virtude desta operação redutora, produz-se o efeito perverso que o historiador Carlo Ginzburg assinala no que respeita ao lugar de minorias sociológicas no âmbito das narrativas históricas: silenciadas pela violência das relações sociais do passado, são relegadas ao silenciamento perpétuo quando a sua versão da história é subsumida nas categorias exógenas impostas por uma versão do passado pretensamente mais legítima. Neste sentido, o olhar compreensivo nos estudos sobre os Kuvale revela coordenadas interpretativas inestimáveis para que se possa tentar reconstituir a experiência destes sujeitos em momentos significativos da sua história, bem como definir quais são estes momentos a partir das suas próprias categorias.

 

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Cátia Miriam Costa

Investigadora pós doc, com bolsa da FCT, no Centro de Estudos Internacionais, ISCTE-IUL. Doutorou-se com uma tese sobre discurso científico, político e ficcional, na área da literatura. O seu pós doutoramento é intitula-se “Quebrar o silêncio: poder e circulação discursiva na sociedade colonial e pós colonial”, dedicada especificamente aos casos de Angola e de Macau e focando profundamente o papel da imprensa e dos social media na discussão política e na criação de redes intelectuais. 

Para além desta sua investigação, tem desenvolvimento interesses nas áreas da cultura e economia criativas, da internacionalização através da ciência, tecnologia e criatividade e da diplomacia científica.

 

Rafael Coca

Tenho bacharelado e licenciatura em história pela universidade estadual de Campinas. Desenvolvo pesquisa de mestrado no programa de pós graduação em história social da África, na mesma universidade.

 

Alexandra Dias Santos

Doutorada em Sociologia pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), Alexandra Dias Santos lecciona na Universidade Europeia, onde coordena a área de Ciências da Comunicação. Investiga na área dos Cultural Studies, interessando-se pelas representações ideológicas, nomeadamente nacionalistas, na literatura. Na sua dissertação de doutoramento analisou a obra do escritor angolano Pepetela, que procurou compreender nas facetas mais políticas e ideológicas, a partir de contribuições da sociologia, da história, da antropologia e da ciência política.

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