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Ruy Duarte de Carvalho nas margens da terra angolana

Com o desaparecimento de Ruy Duarte de Carvalho, a cultura de língua portuguesa perdeu um dos seus representantes mais originais, um dos que ergueram alto o espírito de investigação tanto no plano antropológico como na escrita poética, o respeito pelo Outro quando este pertence a uma civilização radicalmente diferente, o amor pela língua de Camões e a sinceridade de um empenhamento quotidiano nos assuntos angolanos (embora nascido de pais portugueses, Ruy adoptou a nacionalidade angolana logo que o país conseguiu a sua autonomia política). Deixa uma obra proteiforme: depois de ter sido técnico agrícola, apresenta uma tese de sociologia em Paris II sobre a comunidade de pescadores da ilha de Luanda, o que lhe dá a possibilidade de ensinar antropologia e, mais tarde, de se tornar professor convidado em diversas universidades (Berkeley, São Paulo, Coimbra). Forma-se também nas técnicas de cinema em Londres. Realiza uma dezena de curtas e longas-metragens entre as quais Nelisita (1882), Moia : o Recado da Ilhas (1989) assim como um documentário sobre a celebração da independência de Angola no município do Prenda, um bairro da capital, na noite de 10 para 11 de Novembro de 1975.

Paralelamente, publica poemas (reeditados sob o título Lavra-Poesia 1970-2000 em 2005), uma (única e curta) narrativa de ficção intitulada Como Se o Mundo Não Tivesse Leste, 1977), estudos de antropologia, nomeadamente Vou Lá Visitar Pastores (1999), relato descritivo e analítico que trata da vida dos Kuvale –pastores nómadas e criadores de gado que se estendem pelo sul de Angola na fronteira da Namíbia – e múltiplas publicações em diferentes periódicos (inclusive em francês) que abordam os problemas sócio-económicos criados pela partida dos colonos ou por esta ou aquela decisão das autoridades do MPLA. Seja qual for o tipo de produção considerada, todas têm um ponto comum: estão ancoradas num meio geográfico e humano perfeitamente circunscrito. E por detrás da vontade de apreender, do lugar mais perto possível, o viver, o sentir e o pensar das comunidades mal conhecidas porque minoritárias, ele assume um respeito total por estas populações tanto mais que, no contacto com elas, Ruy Duarte descobre uma estética assente em conhecimentos geo-climáticos dos autóctones.
Através dos provérbios e de outras manifestações colectivas da sua cultura, abre-se a uma voz impessoal capaz de captar tanto as observações mais terra-a-terra, relacionadas com a vida de todos os dias, como os mitos fundadores da cultura local.

O seu discurso nada tem de dogmático; ele faz-nos ler as reflexões do autor sobre o seu próprio trabalho, o seu medo obsessivo de trair ou de conhecer mal este ou aquele acontecimento, este ou aquele comportamento, a alegria decorrente do sentimento de ter penetrado no que é a beleza feminina, de ter avaliado a importância das transumâncias, de ter conseguido fazer de uma zona desértica o seu momento de vida material e intelectual. A descrição muito próxima da observação no terreno acompanha, pois, a emoção ou o sentimento pessoal.

E, acima de tudo, dá testemunho das comunidades que, por viverem à margem dos grandes centros urbanos, conservaram intactas as suas tradições e as suas línguas, mas que acabam por ser apanhadas pela modernidade e a sua mecanização excessiva com todas as consequências negativas daí decorrentes, no que diz respeito aos modos de apreensão do mundo exterior, às relações com o saber tradicional, à educação, etc.
Um dos pontos mais originais da obra de Ruy Duarte é o questionamento, que se aprofunda cada vez mais no decurso do tempo, sobre as capacidades da língua para exprimir as reacções do poeta-investigador perante este ou aquele fenómeno e restituir o mais fielmente possível os factos, os gestos e os pensamentos dos autóctones. Nisso, e apesar das diferenças notórias, ele aproxima-se de Michel Leiris que conseguira levar por diante um trabalho etnográfico e um questionamento sobre a sua própria prática poética.

 

publicado em francês no Africultures


     

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