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Swakopmund Galore

Basta sair dez minutos da cidade para estar no meio do deserto com paisagens intermináveis em todas as direções e mais ninguém na estrada. Tudo extremamente extenso, um tecto de nuvens com converge no infinito com a terra, sempre castanha torrada com os ocasionais arbustos. A estrada sempre a direito durante centenas de quilómetros. A chuva inesperada dos ultimos três meses faz com que, num momento, tudo fique verde, um pouco mais à frente o capim florescido sugere as planícies infindáveis cobertas de neve, com o sol a por-se e o nevoeiro. Até cerca de 200 km a partir da costa não se distingue o fim da terra e o início do céu, só se lá muito distante. O vento faz ulular o capim e então fica verdadeiramente fascinante, um mar branco que se estende por centenas de quilómetros em todas as direcções e que termina no céu.

A chegar a Swakopmund há um anticlimax. A bruma já densa corta totalmente a luz do sol e desaparece o verde, o branco, o dourado, fica apenas um deserto cinzento e inóspito com as ruínas industriais que começam a surgir. É, no entanto, fascinante colmatar todo esse sublime paisagístico e transumante com essa decadência totalmente infértil.


Swakopmund parece uma mistura entre a Califórnia, a Alemanha e Moçamedes. Planeamento quadrangular com comércio espirituoso vocacionado para o turismo, casas de recorte alemão e ruas largas. Há cruzamentos onde, de um lado, se vê as dunas do deserto e do outro o mar. Restaurantes e hostels por todo o lado, 95 por cento dos empregados pretos e 95 por cento dos clientes brancos e turistas, na sua maioria sul-africanos e alemães, sem que isso traga um tipo particular de tensão ou medidas securitárias. A população local vive bem do turismo e os turistas ficam contentes de não encontrar as tensões da África do Sul. São gente estranhíssima os boers e os sul-africanos, enormes e brutos como forcados, uma moda anacrónica de anos 90 meets safari, todos ou muito singelos ou com ar de levar a caçadeira na mala detrás do carro para caçar pretos. Além destes alguma camada juvenil motivada pelos desportos radicais e outros pelas aventuras do deserto.


Para cima fica Cape Cross. Mais deserto agreste sempre junto ao mar. Uma paisagem lunar com pouco que ver com os estereótipos de África, quando se sobe temos, à direita, algumas montanhas a uns 100-150 quilómetros onde aparentemente ainda vivem tribos caçadoras-recolectoras que nunca viram brancos, à esquerda o mar. De notar que este deserto todo tem entre 100 e 200 milhões de anos (uma margem divertida). De uns 200 em 200 kms aparecem uns hotéis perdidos no meio do nada e mais raramente ainda umas povoações mínimas. Ao lado de um deles há um posto de observação de focas (onde está também assinalada a chegada do Diogo Cão). Aí vêem-se umas largas centenas delas na praia num espectáculo algo dantesco, parecem lesmas com focinho de cão e estão imensas concentradas num espaço mínimo (voluntariamente) só se vê seres negros a enrolarem-se uns nos outros e quando não estão a foder estão a lutar, na água estão outros milhares a nadar. o cheiro é intensíssimo e desagradável, assim a cru a visão faz lembrar uma enorme cena de pânico.


Para baixo de Swakopmund começa o deserto de dunas que se estende por três mil km com uma largura de 200-300. Contornado, do outro lado, por um pequeno rio ao largo do qual há alguns autóctones e uma estação de estudo do deserto. Por aí adentro é que é realmente isolado e mete bastante respeito, nos 300 kms que fizemos só nos cruzamos com um ou dois carros, um calor infernal, o caminho de terra batida feito cacos… Aparentemente houve dois alemães que viveram por aí dois anos para fugir à segunda guerra. Mas se seguirmos juntos ao mar chega-se às minas de sal, também extensíssimas, onde volta a surgir o mesmo efeito de não ser perceptível a fronteira entre a terra, o céu e o mar. Dependendo da altura do dia e das nuvens, as salinas podem tornar-se todas cor-de-rosa e aí é nos detalhes que fica algum lunar. 
Voltar a Swakopmund é estranho, fora da estação há sempre uma neblina na cidade e, dado que tudo fecha às cinco da tarde, a cidade fica deserta, quase abandonada, uma velhinha que passeia por ali, uns namorados acolá, mas fora isso é Twin Peaks.

fotografias de Luhuna e Rute Margalhães, viagem pela Namíbia com Ruy Duarte de Carvalho, 2008

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