Website on global south and decolonial issues.

0°20’7”Norte 6°43’5”Este

Exposição de ANA VELEZ + JOANA GOMES + PAULO PASCOAL

A nossa memória

Lembro-me de, ainda criança, sentir uma enorme paz quando, a norte, passava os Verões na casa de praia dos meus avós, sempre com os pés em croquete de areia a correr pela casa, coleccionando conchinhas e borboletas entre poças e dunas. Lembro-me de, ao fim do dia, o pôr-do-sol entrar na sala-de-estar, cor de fogo, e preencher o espaço com laivos quentes.

Lembro-me particularmente de adorar ouvir a minha querida avó a contar histórias e aventuras do meu bisavó em São Tomé e Príncipe – “aquela ilha é um paraíso na terra!” [Um dia confidenciou-me que, talvez este fosse o único lugar que ela gostasse mesmo de conhecer em toda a África…].

As cartas que se trocaram, descrevem o quotidiano naquela ilha de pessoas amáveis, com uma abundância vegetal abençoada… Guardo na memória, de sorriso nos lábios, a imagem do meu bisavó em trajo de banho completo, quando, ao raiar do sol de São Tomé, ia nadar naquele mar onde o céu se reflecte e o horizonte se funde na paisagem.

Ainda não visitei esta ilha, mas as memórias que me passaram, deixaram-me um carinho especial por esta terra rodeada pelas águas atlânticas. É neste contexto que surge a minha curadoria e me incentiva a desafiar pessoas que estiveram neste lugar único, a partilhar connosco a sua experiência colectiva com especial carinho. Se este amanhecer, há mais de 80 anos, fez sentir-se como um afago ao meu bisavô, como seria hoje a impressão desta mesma ilha para a Ana, a Joana e o Paulo?

Esta Exposição é uma memória.

O Paulo decidira mudar-se de um continente para uma ilha, e viver num lugar onde a sua criatividade pudesse fluir e partilhá-la com aqueles que lá vivem. Mais de um ano viveu por lá, e ainda  hoje a sua estadia tem impacto na vida em alguns santomenses. A Ana e a Joana experienciaram este lugar mágico por três meses, quando ocorreu a residência artística no âmbito da 7ª Bienal de São Tomé e Príncipe.

Os três conheceram-se na ilha e forjou-se uma amizade desde então. Juntos partilharam a “Casa Verde” e percorreram quilómetros, documentando e experienciando sabores, cores e outras vivências deste arquipélago.

O Paulo, actor e performer, registou-as com a sua câmara, guardando os sons das vozes e os silêncios ruidosos da natureza. A Joana, artista visual, percorreu-a em busca dos lugares que o seu pai Carlos tinha fotografado durante os anos noventa, em película colorida, procurando também sabores da fruta que, nessa mesma época, o seu pai lhe trouxe numa pequena cesta. Memórias que nunca esqueceu. A Ana, também artista visual, foi à descoberta das memórias de Portugal nesta ilha, que são património de São Tomé e Príncipe.

Nesta viagem, com o horizonte constante do mar, em cada trilho e quando se sentavam a admirar o pôr-do-sol, um sentimento de plenitude e pujança de cores. Em Lisboa, por entre as colinas, somos banhados por uma luz dourada com tons de lilás, azul e amarelo. Mas em São Tomé, contemplam-se os tons da malha exuberante dos verdes com a cor terracota que se fundem com os azuis quentes do horizonte, numa combinação de ocres, laranjas e prateados.

As memórias que partilhamos nesta Exposição não são apenas as nossas, mas também as das melancólicas vozes dos jovens poetas são-tomenses, que nos fazem viajar a estas ilhas pela matização de palavras que se juntam às nossas na instalação no Espaço Espelho D’Água em Lisboa, onde as palavras “calema”, “calcinante”, “ardente”, “encostas ferruginosas” ou “areia morena” se expressam fazendo-nos sentir a luz radiosa e a areia quente debaixo dos pés…

Trata-se de uma exposição de memórias de todos nós.

Criando um diálogo sensorial entre as nossas translúcidas memórias e as luminosidades que envolvem a paisagem deste lugar-galeria, através de uma obra de arte site-specific, formada por duas pinturas suspensas, com mais de três metros em pano de linho cru, uma com cores da aurora e outra com as cores do lusco-fusco que Joana e Ana criaram e com uma faixa sonora, na qual se ouve a voz do Paulo tingida com os sons da ilha a ecoar pelo espaço expositivo, assim se ouvem e se vêem as cores de São Tomé e Príncipe…

É como se lá quiséssemos voltar. Trazemos a Lisboa um pouco da poesia que encontrámos nesta ilha.

0°20’7” Norte 6°43’5” Este é apresentada num edifício-ilha frente ao rio Tejo, com ventos que singraram para o hemisfério Sul através do mesmo oceano que banha o lugar que homenageamos.

duas pinturas em acrílico s/ linho 196x300 cm + Som stereo 25'duas pinturas em acrílico s/ linho 196×300 cm + Som stereo 25′

***

A exposição 0°20 7”NORTE 6°43′5”ESTE apresenta um projecto colaborativo entre artistasque partilharam o mesmo pôr-do-sol numa ilhaparadisíaca no meio do oceano Atlântico – Ana Velez, Joana Gomes e Paulo Pascoal. Com curadoria de InêsValle, e apresentada no Espaço Espelho D’Água entreo dia 29 de Julho e 12 de Agosto de 2020, um projecto artístico que entrelaça memórias, sentimentos com percepções de espaço e tempo.

 

OS VENTOS DO SUL TROUXERAM A LISBOA UM NOVO ESPAÇO DE PROGRAMAÇÃO CULTURAL.

Criado pela curadora Inês Valle, the CERA PROJECT apresenta-se como uma plataforma alternativa e itinerantede promoção cultural na cidade de Lisboa. A programação “Vento Sul” apresenta pela primeira vez após o nosso lockdown em Lisboa, um ciclo de exposições, cinema, conversas, performances integrado no Espaço Espelho D’Água. O primeiro evento será já dia 29 de julho pelas 16 horas, com a exposição ‘0°20’7”Norte 6°43’5”Este’, uma obra colectiva site-specific de Ana Velez, Joana Gomes e Paulo Pascoal, na visão curatorial de Inês Valle.

PRESS INFO PEDROFILIPE@MI6.PT | +351 914 649 716

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.