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A nova cidade do Dundo

O ano de 2013 deverá ser o da consagração do Dundo como cidade capital da província da Lunda-Norte, 35 anos depois da divisão da antiga província da Lunda em duas (Lunda-Norte e Lunda-Sul), mais exactamente em 4 de Julho de 1978. De facto, estão em fase final de acabamento as novas e modernas construções da nova cidade, por entre edifícios residenciais e administrativos, escolas, hospital, aeroporto, parques e jardins.  

A nova cidade do Dundo já se destaca na paisagem com as suas torres coloridas e novas outras construções pintadas de fresco, em ruas alinhadas e asfaltadas, passeios pavimentados e jardins floridos. O trabalho começou em 2009 e, dentro em breve, o Dundo mostrará cerca de 5 mil novos apartamentos, distribuídos por 4 torres de 18 andares, 18 prédios com 11 andares, 32 prédios com 9 pisos e 365 edifícios mais pequenos, com 5 pisos cada um.

Está também em fase de acabamento a construção de edifícios administrativos, como a casa protocolar do governo provincial, um hospital com 92 camas, uma escola primária com 30 salas de aulas e laboratório para 1.350 alunos e um jardim infantil. A cidade do Dundo abrir-se-á com renovado aeroporto, com pista ampliada e alargada, novas salas de passageiros, salas protocolares, lojas e dois restaurantes.

A História do Dundo remonta ao longínquo ano de 1912, quando foram descobertas as primeiras pedras de diamante no riacho Mussalala, afluente do rio Chiumbwe. A descoberta das pedras preciosas levou à criação da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang), em 1917, e o começo da construção do então aldeamento do Dundo, no sentido de albergar os mineiros e funcionários administrativos dessa multinacional. Em 1971, a extracção de diamantes já atingia a produção recorde de 2.413.021 quilates.

No ano de 1974, em 25 de Abril, deu-se em Portugal a mudança de regime ditatorial para democrático e, consequentemente, a independência de Angola em Novembro do mesmo ano. Em 1978, a até então província da Lunda foi dividida em duas, Lunda-Sul e Lunda-Norte, com a vila do Lucapa como capital desta última. Entretanto, em 2000, a capital da Lunda-Norte foi transferida para o Dundo, pelo facto de possuir melhores estruturas administrativas.

Em 2009 começou o trabalho de construção dos novos empreendimentos no Dundo e certamente que o corrente ano será o da consolidação do seu estatuto de capital de uma província com uma população de pouco mais de 1 milhão de habitantes nos seus nove municípios. Além da exploração de diamantes – a principal fonte de recursos financeiros – a província também possui riqueza agro-pecuária e florestal, é detentora de vastos recursos hídricos e de outros minerais ainda por explorar, como granito e ouro.

História e lendas

A história e a lenda caminham juntas na Lunda-Norte, que no passado terá sido habitada por povos pigmeu, que foram forçados a de lá saírem com a chegada das tribos bantu, na sua migração para Sul do continente. Tanto a Lunda-Norte, como a Lunda-Sul e parte do território da actual República Democrática do Congo (ex-Zaire) faziam parte do então Império Lunda, maioritariamente habitado pelos povos Lunda e Tchokwe.

A Lunda-Norte está ligada ao nome da lendária rainha Lweji-a-Nkondi, que assumiu o trono do Império após a morte do pai, o rei Kondi Mateta. Lweji viria a casar-se com o caçador estrangeiro Tchipinda Ilunga, de etnia Baluba, o que terá estado na origem de cisões e na decadência do Reino. Os seus irmãos, Tchinguri e Tchinhama, foram os primeiros a abandoná-la, seguidos pela sua tia Nacapamba, originária da etnia Tchokwe.

Tchokwe é actualmente o grupo étnico maioritário da província, seguido dos Lunda, Camatapa, Cacongo, Luba, entre outros. O Tchokwe é também a língua nacional mais falada em toda Lunda-Norte e no Dundo, no extremo Nordeste de Angola, que confina com a República Democrática do Congo e as províncias irmãs da Lunda-Sul e Malange, a 1.510 quilómetros de Luanda.

 O clima é tropical húmido, com temperatura média de 27ºC por ano. Para o turismo, a natureza oferece paisagens de nascentes de água, lagos, lagoas, rios e riachos. Mas também edifícios coloniais classificados como monumentos, como as Estações Arqueológicas de Bala-Bala, de Luaco e de Candala, o Palácio do Governo e a sede dos CTT. Mas a visita de maior importância e valor será sempre ao Museu Regional do Dundo.

O Museu Regional do Dundo

O Museu Regional do Dundo ressurgiu modernizado a fundo, em Agosto do ano passado, após um período de encerramento para reabilitação e renovação. O Museu reabriu as portas com visíveis melhoramentos no seu edifício central, mas também nas estruturas externas, com salas de exposição melhor apetrechadas, novas vitrinas para melhor aconchego e exibição das peças arqueológicas – um cenário que proporciona aos visitantes maior à-vontade nas consultas ao seu acervo.

E há muito a consultar no Museu do Dundo que, se antes já estava situado entre “os maiores e melhor apetrechados de Angola e de África a Sul do Sahara”, reforçou essa condição, organizado em áreas de etnografia, história natural, arqueologia e paleontologia. Possui 14 salas de exposições (doze permanentes, uma temporária e outra de folclore), com uma colecção de cerca de 10 mil peças, 818 das quais estão expostas a tempo inteiro.

As diferentes áreas do Museu descrevem a vida quotidiana, cultural e a organização político-social dos povos Lunda/Tchokwe, com uma biblioteca com cerca de 35 mil livros ligados sobretudo à etnografia, arqueologia, filosofia, biologia e história natural. Uma sala multimédia está preparada para projecção de filmes, fornecendo as mais variadas informações sobre os habitantes do Leste de Angola, à qual se junta um laboratório de biologia.

Na cerimónia de reinauguração, a ministra da Cultura Rosa Cruz e Silva, sublinhou que o Museu foi apetrechado com equipamento moderno, que o converteu em “complexo museológico multidisciplinar” e lhe permite o uso de métodos científicos no tratamento do acervo e estudo do património. A seu ver, a instituição também conta agora com recursos humanos mais qualificados, que garantirão “um trabalho investigativo mais aprofundado em toda a região sócio-cultural Lunda/Tchokwe e dos grupos etnográficos vizinhos”.

Por seu lado, o director nacional dos museus, Manzambi Vuvu Fernando, assegurou que o Museu do Dundo “corresponde aos padrões internacionais (…) e a sua reabertura reveste-se de grande importância para a Lunda e para as províncias circunvizinhas, por ser um espaço de divulgação e de união das suas culturas e povos, (…) virado para as origens, expansão e fixação dos povos Lunda, Tchokwe e aparentados”.

A história do Museu remete-nos ao distante ano de 1936, altura em que começou a ser criado e subsidiado pela então Companhia de Diamantes de Angola (Diamang), a partir da colecção do já falecido etnólogo e estudioso dos povos de Angola José Redinha, que tornar-se-ia mais tarde curador do Museu. Em 1942, abriu as portas com a designação de Museu Etnológico, tendo como principal objecto social a recolha, classificação e exibição de peças retratando os hábitos e costumes da região Leste de Angola.

Em 1976, após a independência de Angola, foi nacionalizado e apresentado como “museu identitário, voltado para a conservação do acervo cultural, material e espiritual dos povos Lunda/Tchokwe”. A degradação do edifício forçou o seu encerramento em 2004, passando a ser alvo de obras financiadas pela actual empresa diamantífera angolana ENDIAMA, sucessora da Diamang, Ministério da Cultura, Governo da Lunda-Norte, Universidade de Coimbra, entre outras instituições.

Mundialmente conhecido pelo seu acervo em arte Lunda/Tchokwe, possui documentação composta por centenas de relatórios dos diferentes serviços da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang), cobrindo detalhadamente cerca de meio século da ocupação colonial da área. O acervo compreende ainda milhares de fotografias e outra documentação relativa à vida cultural das populações do Leste de Angola.

Máscara Mwana Pwo

A grande atracção do Museu é a célebre máscara Mwana Pwo (Jovem Mulher), em exibição na sala reservada às Artes e Actividades Lúdicas, onde existe ainda uma grande variedade de outras máscaras lúdicas, máscaras de dança Mukixi, instrumentos musicais tradicionais, cintos de dança femininos, jogos e esculturas em madeira, como estatuetas representando bailarinos ou mulheres repousando.

A sala destinada à Religião, Iniciação Masculina e Medicina Tradicional apresenta objectos relacionados com a cerimónia de iniciação masculina e circuncisão, utensílios utilizados nos rituais de adivinhação (como o toucado de penas decorado com missangas, utilizado pelos Thai), os símbolos de Kalunga (Deus) e de fertilidade, a efígie de Mukixi ya Cikuza (patrono dos mukixes no ritual de iniciação masculina) e muitos outros objectos tradicionais.

A visita passa também pela sala da Organização Política, que mostra os símbolos do poder, como o trono do soberano Tchokwe, o seu barrete decorado com missangas, o bastão, o colar com a insígnia de chefe, assim como instrumentos de uso pessoal, como pentes, escovas de cabelo, potes de barro, cachimbos de água, machados, entre outros.

As peças utilizadas nas caçadas estão expostas na sala da Caça, onde se observam armadilhas, cartucheiras, armas de pedreneira (canhangulos), lanças, arcos, flechas e amuletos. Mas além da Caça há também espaço para as Actividades Económicas, em cuja sala é possível observar-se o resultado do trabalho dos ferreiros tradicionais, objectos trabalhados em marfim, cera e borracha, redes e armadilhas de pesca, pirogas e colmeias.

Situando-se numa região de extracção diamantífera por excelência como é a província angolana da Lunda-Norte, não faltaria ao Museu uma sala destinada à Indústria Mineira, que exibe os diferentes utensílios relacionados com a actividade diamantífera artesanal e industrial, uma lavaria de diamantes, colares e outras jóias confeccionados com aquelas pedras preciosas.

 Na sala sobre Colonização e Resistência à Ocupação Colonial podem ver-se, entre outros, objectos primitivos da repressão colonial, como palmatórias e chicotes, e exemplares de documentos coloniais. Mas, na realidade tudo começa na Sala da Pré-História e Arqueologia, onde se podem ver outros instrumentos primitivos, como pedras trabalhadas à mão, facões e pontas de lança de pedra, entre muitas outras atracções.

Fotos do autor

originalmente publicado na revista Austral nº 96

 

pode ver aqui parte do espólio do Museu do Dundo

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