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Acha que minto? – exposição de Jimmie Durham

14 SET 2019 — 5 JAN 2020 na Culturgest Porto.

fotografias de Marta Lança

O percurso de Jimmie Durham cruza a poesia, o ativismo político e a prática artística numa enorme coerência que tem dado novos sentidos à relação entre política e poética. Permanentemente questionando as representações identitárias oriundas das forças dominantes, os processos de exploração e os discursos de acantonamento do outro, a obra de Durham funciona como um espelho em relação às nossas próprias construções identitárias e representações mais atávicas. 


A exposição que apresenta no projeto Reação em Cadeia retoma a exposição intitulada História concisa de Portugal que o artista apresentou em 1995, na Galeria Módulo. Esta foi a primeira presença do seu trabalho em Portugal e veio a ser relevante no seu percurso. 

Inspiradas no livro O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago (que Durham considera uma referência para si próprio e para a história do século XX), as obras incluem citações do texto que, datilografadas ou manuscritas, integram individualmente cada uma das peças, não se constituindo, no entanto, como metáforas ou ilustrações.

O trabalho artístico de Jimmie Durham é com frequência vinculado ao lugar específico onde é criado. Também as peças que integraram a exposição apresentada na Galeria Módulo partiram sempre do universo local: Lisboa. Construídas a partir de objetos encontrados pelas ruas da cidade (troncos e pedaços de madeira, pedras e peças variadas de metal, plástico, cerâmica ou tecido), parecem definir um universo precário e resgatado a um tempo indefinido. A relação paradoxal entre realidade e ficção, essencial na estrutura do livro de Saramago que narra o último ano da vida do mais famoso heterónimo de Fernando Pessoa, possui aqui um correlato expresso no título da exposição Acha que minto?, ele próprio uma citação do mesmo livro. Valerá a pena transcrever o texto de Saramago, por sua vez incluído numa das obras de Durham: “Acha que minto, Não, que ideia, aliás, nós não mentimos, quando é preciso limitamo-nos a usar as palavras que mentem.”

As frases (1995) consiste numa escultura que integra um lavatório banal quebrado e os restos da sua fratura espalhados no chão. Trata-se de uma obra que resultou da performance que o artista realizou na inauguração da exposição, na qual, após um monólogo sobre a generalidade do mundo proferido enquanto construía um machado com uma pedra, um tronco de madeira e uma tira de couro, subitamente, num gesto determinado e teatral, quebrou o lavatório.

A questão que Jimmie Durham traz à superfície é a da verdade da obra de arte, provavelmente um dos temas mais relevantes num mundo que esquece permanentemente a natureza ficcional da arte – o que não implica que não inscreva, na sua materialidade e no caráter representacional, uma intrínseca verdade paradoxal. A fragilidade e aparente vernacularidade das obras que integram a exposição joga, portanto, com a fina linha entre a produção do real e a recolha de objetos do mundo, num palimpsesto de sentidos que gera uma tensão entre o que nos é dado e o que construímos.

Para além das peças de 1995, o artista apresenta a obra sonora SONG NC SHARP (2006), que passou um longo período sem ser mostrada, e uma peça nova. A primeira regista o som de vidros a quebrarem, copos atirados contra o chão ou a parede pela mão do próprio artista; a segunda é uma escultura especificamente concebida para este projeto, que inclui pedras semipreciosas colecionadas por Durham ao longo dos anos. 

No seu conjunto, estas obras retomam as temáticas que o artista tem vindo a desenvolver: a quebra, o estilhaçar do mundo e, simultaneamente, o seu encantamento assente no acidente e as políticas de representação identitária.

Acha que minto? constitui, desta forma, a recuperação de um momento importante no percurso de Jimmie Durham mas também uma ponte em relação ao seu trabalho presente, demonstrando a sua aguda atualidade.

Jimmie Durham (EUA, 1940) iniciou o seu percurso como ativista político, poeta e performer muito jovem, no início da década de 1960. Em 1969, já em Genebra, estudou escultura e performance na École National Supèrieure des Beaux Arts.

De regresso aos Estados Unidos envolveu-se com o American Indian Movement, do qual integrou o conselho central e, posteriormente, dirigiu o International Indian Treaty Council, tendo vindo a representá-lo nas Nações Unidas.

Em 1980, voltou a dedicar-se à arte, mantendo, no entanto, o ativismo político e associativo. Deixou os Estados Unidos em 1987 e foi viver para Cuernavaca (México), período durante o qual participou em exposições internacionais de referência, como a Documenta (Kassel, Alemanha) ou a Bienal de Whitney (Nova Iorque, EUA). Estabeleceu-se na Europa em 1994, residindo atualmente entre Berlim e Nápoles.

Os seus textos foram reunidos no livro A Certain Lack of Coherence (Kala Press, 1993), tendo sido publicado um segundo volume mais recentemente: Jimmie Durham: Waiting to be Interrupted. Selected Writings 1993–2012 (M HKA e Mousse Publishing, 2014).

Em 2017, foi objeto da exposição retrospetiva Jimmie Durham: At the Center of the World, organizada e apresentada pela primeira vez pelo Hammer Museum (Los Angeles, EUA), tendo passado posteriormente por Walker Art Center (Minneapolis, EUA), Whitney Museum of American Art (Nova Iorque, EUA, 2017-2018) e Remai Modern (Saskatoon, Canadá, 2018). 

Este ano ganhou, na 58.ª Bienal de Veneza, o Leão de Ouro pelo conjunto da sua obra.

O projeto Reação em Cadeia é uma colaboração entre a Fidelidade Arte e a Culturgest, com curadoria de Delfim Sardo. A proposta consiste em implicar os artistas na seleção dos seus pares, que irão suceder‑lhes no espaço da Fidelidade Arte (primeiro) e da Culturgest Porto (em seguida). O curador convidou Ângela Ferreira (Maputo, 1958), cuja exposição inaugurou este ciclo e que escolheu Jimmie Durham como seu sucessor. Por sua vez, o artista norte-americano colaborou na seleção do artista seguinte, Elisa Strinna (Pádua, 1982).


As três intervenções conhecerão diferentes declinações na Fidelidade Arte e na Culturgest (no Porto), nomeadamente com a presença de obras diferentes, resultado de profundas adaptações dos projetos à diferente natureza dos dois espaços.

No final será publicado um livro que compilará a memória dos três projetos do ano, com extensa documentação sobre o seu desenvolvimento.

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