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AFRICA: see you, see me!

Uma exposição de fotografia com curadoria de Awam Amkpa
(Curador Associado: Madala Hilaire)

 

foto de Hank Willis Thomasfoto de Hank Willis ThomasEmoldurados por uma estrutura de madeira os veículos conhecidos como “Mammy Wagons” voam sobre buracos e curvas sem visibilidade para as paisagens incertas da África Ocidental, a velocidades muito acima dos 56 km/h. (quilómetros por hora) e com as retaguardas ornamentadas. O seu nome advém das mulheres do mercado que transportam as suas colheitas, como inhame, tomates, cebolas, bananas e óleo de palma através dos seus países e atravessando fronteiras.

Para além de desempenharem a importante função de transportarem a indispensável comida através das diferentes nações, estes “Mammy Wagons” servem de placard para cartazes artísticos, escritos e pinturas. Estas pinturas podem invocar filmes populares, símbolos nacionais, ou interpretações de contos tradicionais africanos. Frases escritas com maiúsculas ou minúsculas em francês ou inglês acompanham as ilustrações. Declarações como “O Senhor é o Meu Pastor”, “Sem Destino, Sem Pressa”, “A Justiça é a Saúde dos Pobres” ou “ O Mundo não é Só Para Ti” são típicas. De facto, à passagem dos “Mammy Wagons” através de estradas sem manutenção e cambaleando em curvas perigosas, os seus placards oferecem aos leitores e aos observadores uma tela de desejos, frustrações, e esperanças por uma sociedade melhor.

AFRICA: SEE YOU, SEE ME! Este nome foi retirado de um trabalho artístico de um “Mammy Wagon” que vi numa estrada nigeriana há muitos anos atrás. O camião ultrapassou o carro em que seguia, libertando uma nuvem de fumo negra e mal cheirosa de gasóleo, deixando-nos uma imagem gravada de dois olhos enquadrados por uma imagem pincelada de um mapa de África. Na superfície corroída do mapa de África aninhava-se a inscrição See You, See Me! [Vejo-te, Vê-me!]. Ao cruzar-se connosco, o camião levou os ocupantes do meu veículo bem mais calmo a pensar como é que nós, enquanto africanos, nos vemos e nos imaginamos a nós próprios, mas também como é que queremos que os outros nos vejam.

Neste contexto, esta exposição utiliza as práticas fotográficas africanas com o objectivo de chamar a atenção para a forma como os africanos se representam a si próprios, e a influência crescente destas auto-representações na moldagem da forma contemporânea como se fotografa África.

Os fotógrafos africanos herdaram modelos de representações fotográficas enquadradas por arquétipos coloniais de africanos enquanto objectos de uma história vivenciada, mas sobre a qual não tinham qualquer controlo. Este paradigma de objectivação promoveu uma fórmula estranha de presença/ausência. Contudo, à medida que os africanos foram pousando para os seus próprios fotógrafos pareciam começar a querer dizer: “a objectiva tem que me ver como eu quero ser visto”.

AFRICA: SEE YOU, SEE ME! retrata a história da fotografia africana e a sua influência em
imaginários não-africanos de África e nos imaginários da diáspora africana em toda a sua diversidade. Juntas, as fotografias são textos de subjectividades africanas, arquivos de história e sociedades, que na sua elaboração e métodos ajudam a compreender de que forma as imagens contribuem para a emancipação. Elas criticam as patologias da África neo e pós-colonial retratando as diferentes comunidades do continente a libertarem-se de estados repressivos. Enquanto alguns fotógrafos documentam a participação de africanos em assuntos de estado, outros  retratam a formação de comunidades voluntárias pós–nacionalistas como instrumentos de capacitação.

AFRICA: SEE YOU, SEE ME! está organizada em três partes. A primeira secção é composta por retratos de africanos que procuram inscrever-se nas paisagens urbanas para as quais migraram. Apresenta os fotógrafos africanos à medida que eles foram dominando, adaptando e subvertendo os planos de enquadramento e os legados das convenções fotográficas deixadas pelos senhores coloniais. As fotografias a preto e branco de Mamadou Mbaye e Malik Sidibe,
por exemplo, ilustram um diálogo tenso entre fotógrafo e fotografado, numa colaboração com vista à inscrição dos espaços e do “ser” africanos nos textos fotográficos. Outros temas desta secção incluem as estruturas das cidades africanas, sociedades e comunidades em formação, e representações de “looks” fora do estúdio de fotógrafos, no terreno. Esta parte da exposição inclui ainda fotografias de heróis africanos anti-coloniais que aspiravam a uma libertação genuína.

foto de Stanley Lumax foto de Stanley Lumax A segunda secção é uma mostra dos primeiros retratos etnográficos que imaginavam África como terra bravia povoada pelos primeiros “outros” europeus. Utilizámos também a estratégia de reler estas fotografias salientando a sua importância enquanto objectos da história da fotografia. História essa, também ela, produto importante de um mundo industrializado definido, não só pelo progresso mas também pela “construção” dos que, de alguma forma, se encontravam no centro e na periferia desse progresso.

A secção final realça fotografias contemporâneas de África, por fotógrafos não-africanos que partilham uma relação de diálogo com os artistas africanos. Assim, estes trabalhos expandem não só as esferas de influência africanas como também a multiplicidade de espaços nos quais os africanos são fotografados enquanto elementos históricos.

Como o “Mammy Wagon” que vi um dia numa estrada nigeriana, juntámos estes fotógrafos às obras apresentadas nas outras secções para dizer aos africanos e ao resto do mundo: See You, See Me.

 

AFRICA.CONT

MUSEU DA CIDADE (Pavilhão Preto), LISBOA de 1 de Outubro a 28 de Novembro.


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