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Andanças – uma comunidade de voluntários

Uma nuvem de fumo e cinzas juntou-se ao habitual pó levantado pelos pés dançantes. O incêndio que deflagrou na sexta-feira nas serras que rodeiam o festival acabou por cercar a área e levar ao seu encerramento antecipado, tendo sido evacuada toda a zona no domingo à tarde e cancelada a programação desse último dia. A dimensão da área ardida é muito significativa e quem todos os anos se desloca a este Festival Internacional de Danças Populares está (e é), sem dúvida, solidário com as perdas dos residentes, em património e natureza. 

Organizado essencialmente por um grupo de amigos, há actualmente uma parceria entre a PéDeXumbo, a Câmara Municipal de São Pedro do Sul, a Junta de Freguesia de Carvalhais e o Centro de Promoção Social de Carvalhais. “Para o bem e para o mal, o Andanças é hoje um festival de massas com todas as coisas boas e más que acarreta. É uma surpresa para nós próprios, nunca pensámos que o Festival teria estas dimensões, não foi projectado, tomou um rumo próprio. Por um lado ainda bem que há multidões de pessoas a dançar, por outro lado há uma série de condicionantes. Nunca fizemos muita publicidade e não temos nada contra os patrocínios mas sim contra as imposições estéticas que fazem. De facto não temos uma máquina gigante como noutros grandes festivais, somos uma pequena entidade.” 

Espectáculo Vira Lata, fotografia de Hugo Lima.Espectáculo Vira Lata, fotografia de Hugo Lima.

Como há 15 anos, o festival é quase totalmente auto-sustentado pelo dinheiro das bilheteiras, dos bares e das bancas montadas (que pagam um aluguer do espaço). Também, como há 15 anos, os monitores das oficinas de dança, das oficinas de instrumentos, pessoas que vêm para apresentar filmes, dinamizar conversas, os músicos, os bailarinos dos espectáculos entre outros, juntam-se voluntariamente a este festival, rondando os 800 participantes nesta edição. São apoiados nas despesas de viagem, na alimentação e em alguns casos beneficiam ainda de condições de alojamento alternativas ao acampamento comum do festival. Muitos grupos de música tradicional e fusões várias, que iniciaram as suas formações no Andanças, têm actualmente a agenda de verão tão preenchida que deixam de participar. Por outro lado, alguns grupos e monitores têm reinvidicado pagamentos pela sua participação e desistido de o integrar, mas muitos continuam a vir, quer pela partilha e convívio com outros pares, quer pela visibilidade dada ao seu trabalho. Diana Mira conta que já conversou com diversas pessoas sobre as possibilidades de pagamento, mas, tentando fazer o difícil exercício matemático, conclui-se que o montante atribuído a cada um seria irrisório sendo preferível manter o actual sistema de voluntariado. “Em todas as outras actividades e eventos da PéDeXumbo os músicos e outros artistas são remunerados, ao longo destes anos não temos cachets em atraso”. A PéDeXumbo tem ainda realizado uma reunião anual com os artistas para debater rumos e logísticas do Festival. Para além dos artistas, há ainda voluntários que cobrem funções tão diversas como a venda de bilhetes, controlo de entradas, apoio ao refeitório, bares e café, recolha de lixo, etc. Este ano rondavam os 750 voluntários, sendo que a maioria realizava turnos de quatro horas e tinha direito a uma refeição. Alguns voluntários, e entre eles contam-se os coordenadores das várias equipas de voluntariado, não têm horário estipulado de trabalho podendo trabalhar até 12 horas por dia, com direito a duas refeições diárias. A maioria dos que experimentam o voluntariado no Andanças adora a experiência e quer voltar, tendo sido necessário criar uma espécie de sistema de quotas para permitir uma renovação dos colaboradores. Segundo Gonçalo Pereira, coordenador geral dos voluntários: “hoje em dia nota-se um maior empenho e responsabilidade nos voluntários. Há até quem pague a pulseira e queira à mesma fazer trabalho voluntário.”

Oficina Dylu, fotografia de Diana Almeida.Oficina Dylu, fotografia de Diana Almeida.

Apesar do grande número de voluntários há ainda serviços que são pagos, alguns por exigência legal, outros por razões logísticas. Entre eles a equipa de segurança que controla as entradas no recinto e acampamento; a Guarda Nacional Republicana que controla o trânsito, pessoal responsável pela cozinha, pessoal que monta palcos e tendas, alguns elementos da PéDeXumbo e, claro, as tarefas menos desejadas como a limpeza das casas-de-banho. 

Como noutras edições, há participantes que levantam questões quanto aos actuais preços do Festival, considerando-os demasiado avultados. Diana Mira comenta: “De certo modo posso considerar que os preços são altos, mas não são altos se comparados com outros festivais, sobretudo se as pessoas comprarem os bilhetes antecipadamente. Por outro lado, este é um festival que se auto sustenta. Se tivéssemos um grande apoio do Ministério da Cultura baixaríamos os preços.“ 

Em relação aos bilhetes da noite estes são agora vendidos apenas a habitantes do Concelho de São Pedro do Sul, sendo esta mudança justificada por Diana Mira com a presença de cada vez mais jovens, ao contrário de outros festivais europeus de música e dança tradicionais onde as faixas etárias são cada vez mais altas. “Começámos a ter alguns problemas com excesso de consumo de álcool por parte de jovens que vinham ao Andanças como quem vai a uma discoteca. Ao vendermos apenas bilhetes para o dia inteiro tentamos que as pessoas participem nas oficinas e aproveitem mais o festival. Apesar do prejuízo no bar e na bilheteira, minimizámos situações de violência e outras associada ao excesso de bebidas alcoólicas.” Mas este é claramente um festival onde as vendas de bebidas são reduzidas, pois os bailes e danças das várias tendas enredam os corpos dos participantes. E haverá, é certo, alguns participantes desapontados com o fim destes bilhetes da noite, sejam ou não dos que cometem excessos com as bebidas. 

Tiago Pereira, co-responsável pelo Espaço Criança, destaca ainda “a participação de várias crianças e jovens de meios vulneráveis que puderam ter acesso a práticas artísticas tão ricas e diversas como as do Andanças”.  Integrados em diversos Projectos do Programa Escolhas com práticas reconhecidas, e oriundos de Guimarães, Évora, Lisboa, Porto e Oeiras, estiveram presentes 5 grupos de 12 crianças e jovens, acompanhados por 3 adultos. Em troca da estada cada grupo dinamizou ainda 3 actividades no espaço criança relativas às dinâmicas dos seus projectos como o Beat Box composto por alguns elementos do Beat Box Ensemble da Casa da Música e as danças africanas com Eva Azevedo e suas alunas do bairro Lordelo do Ouro, ou as danças africanas com elementos dos Batoto Yeto. Tiago Pereira realça ainda “pretende-se abrir as culturas de cada comunidade não ficando as aprendizagens e experiências das crianças e jovens estritamente ligadas às raízes do bairro ou das famílias”. Foram ainda estabelecidos outros protocolos semelhantes que possibilitaram a vinda de mais jovens e crianças. 

Oficina Kizomba, fotografia de Diana Almeida.Oficina Kizomba, fotografia de Diana Almeida.

Áfricas no Andanças

Os monitores e bailarinos africanos presentes no Andanças são quase todos residentes em Portugal já há vários anos e participantes habituais do festival. Miguel Costa, responsável pela divulgação do festival, evidencia que, tal como noutros festivais de música e danças do mundo, há uma grande dificuldade em trazer artistas africanos devido aos problemas burocráticos com vistos. Assim, apesar de a PéDeXumbo procurar apostar nessas interacções e cruzamentos, não tem sido fácil estabelecer pontes, sendo o trabalho feito sobretudo com aqueles que residem e trabalham em Portugal. 

Nas oficinas de instrumentos, o grupo Nação Vira-Lata fez uma interessante integração entre a percussão afro-brasileira, a percussão tradicional portuguesa e a percussão africana mandinga. Os ritmos fortes de cada grupo de instrumentos ecoavam pelos espaços do festival, ritmando os caminhos. Esta oficina envolveu elementos do grupo Bandeada e Sintra Mandinga e outros participantes, tendo todos eles feito parte do segundo espectáculo do grupo nesta edição do Andanças, que foi também a de lançamento do seu CD. Muito aguardado, o espectáculo decorreu com alguns problemas técnicos, porém, apesar disso, o público esteve empolgado e não arredou pé, adorando a batucada.

As sessões de improvisação são sempre um dos aspectos mais interessantes do Andanças pela sua espontaneidade e riqueza musical. Proporcionam momentos memoráveis para quem por acaso está ou passa ali àquela hora. Uma bateria, uma kora, um acordeão, uma voz, uma flauta. Horas de música livre e espontânea com elementos de vários grupos e vários participantes individuais.  

Nas oficinas de danças cabo-verdianas, com Waty Barbosa em parceria com Hélio Santos e Isaac Barbosa, aprenderam-se mazurcas de Cabo Verde, cola san jon (dança relacionada com os festejos do São João), funaná, coladera, batuque e morna. Os aquecimentos e os alongamentos são já uma fusão de estilos indo buscar inspiração a muitas artes de trabalho mais emocional e mental do que só de corpo. Para Waty Barbosa, que vem ao Andanças como monitor há onze anos, “nota-se uma evolução positiva da dança africana, com uma adesão maior dos participantes que são agora mais conhecedores e interessados”. No final trocaram-se dicas e experiências sobre este arquipélago maravilhoso. 

Oficina Marc N’ Danou, fotografia Hugo Lima.Oficina Marc N’ Danou, fotografia Hugo Lima.Marc N’ Danou, togolês com formação em vários países da áfrica ocidental, foi também o coreógrafo do Ballet Nacional do Togo. Veio para Portugal em 1998 e desde aí tem dançado e coreografado em Portugal. Sendo já um monitor habitual do Andanças, este virtuoso bailarino, surpreende sempre os participantes pela excelência das suas coreografias. Explicou-nos que nos seus ateliês de dança tribal “há uma mistura de movimentos de várias danças tradicionais, que normalmente só têm dois ou três passos, com outros coreografados por mim”. 

O bailarino e coreógrafo Petchú é sem dúvida o pioneiro da dança africana no Andanças, participando como monitor desde a 1ª edição lá no longínquo 1995 em Évora. Este ano esteve presente com ateliês de kizomba, semba e fusão raízes tradicionais africanas. Como o próprio diz “no Andanças há uma boa partilha, que tem vindo a dar visibilidade e reconhecimento às danças africanas”. Animador nato, pode sentir-se a sua presença efusiva a qualquer hora e em qualquer espaço do Andanças, agitando ritmos e sons pelo ambiente. E a palavra não lhe falta “É preciso entrar no coração das pessoas, os participantes vêm buscar relaxamento, descobrir o seu Eu.” No sábado apresentou um magnífico espectáculo com o  seu Ballet Tradicional Kilandukilu. 

Dylu Matola, moçambicana residente no Porto, foi uma estreante no Andanças. O seu conterrâneo Mussá Ibrahimo, coreógrafo do grupo Xipane Pane, não pôde estar presente e foi a vez de Dylu. Realizou duas oficinas em parceria com o togolês Marc N’ Danou, sendo muito bem recebida pelos participantes. 

O angolano Pacas, dinamizou oficinas de street dance cheias de energia e actualidade, misturando músicas e ritmos de áfrica e sua diáspora. Na sexta feira à noite apresentou um espectáculo pujante com o seu grupo. Moxi Wadi Tatu, fala da guerra e do quotidiano, relembrando sem dúvida a história recente do seu país. 

Espectáculo Vira Lata, fotografia de Hugo Lima.Espectáculo Vira Lata, fotografia de Hugo Lima.

O grupo caboverdiano RotchaNú animou os bailes tocando grandês exitos da música africana lusófona que foram recebidos com pares entusiastas. Também participou a bailarina e professora Elsa Shams, demonstrando e incitando os participantes a bailarem a mazurca caboverdiana. 

Espera-se por uma próxima edição para mais danças e músicas populares. Interessante seria talvez experimentar a batida e o break do kuduro com alguém das novas gerações, dança de rua e improviso para dança de oficina. E quem sabe conseguir-se o quebrar dos muros da Europa-fortaleza e trazer novas gentes com novas Áfricas. 

Que o ano longo, com as suas estações mais ou menos subtis, possibilite a continuidade da partilha entre artistas, professores e bailarinos. Rompendo o isolamento dos grupos e criando redes de apoio. É esse o espírito deste festival, no qual Comunidade não será apenas o tema deste ano, mas a sua identidade. Partilham-se os duches e as mãos para o baile, constroem-se fornos solares e caça sonhos. Dá-se uma deixa para se continuarem as danças. Para o ano há mais, mas pelos meses de permeio ficam à espera de descoberta tantas pequenas festas e festivais organizadas por estas e outras gentes.  

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