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Artistas acusam Governo islamista de jogar “o jogo de Ben Ali, o jogo do medo”

Faten Gaddes passou a última semana em Lisboa mas já voltou a Tunes, onde a sua obra foi destruída (Carla Rosado)Faten Gaddes passou a última semana em Lisboa mas já voltou a Tunes, onde a sua obra foi destruída (Carla Rosado)

Os primeiros meses depois da revolta que derrubou o regime de Ben Ali foram de “liberdade total” para os artistas. “Uma liberdade tão completa que o meu amigo Fethi Bensalma [intelectual tunisino, co-fundador do Manifeste des libertés] me disse: “Tens de entender, Karim, politicamente a liberdade não existe, não pode existir”.” Duraria pouco.

Hoje, oito meses depois das primeiras eleições livres dos países das revoltas árabes – de que saíram vencedores os islamistas moderados do Ennahda -, o editor Karim Ben Smail tem novamente medo de publicar um livro. “Somos menos livres a cada semana.” Esta semana, quando falou ao PÚBLICO depois de uma passagem por Lisboa, Karim é menos livre do que há três semanas.

O domingo de 10 de Junho seria apenas o décimo dia da exposição Printemps des Arts (“Primavera das artes”) se não tivesse sido o dia em que grupos de salafistas invadiram o Palácio de Abdelliya, em La Marsa, um bairro abastado dos subúrbios de Tunes. Destruíram e queimaram as obras que viram como uma ofensa à sua religião e ao seu profeta.

Como Punching Ball, da fotógrafa Faten Gaddes, que esteve em Lisboa convidada para o programa Próximo Futuro, da Fundação Gulbenkian, e aí falou pela primeira vez sobre esses dias. Da sua instalação, com quatro sacos de boxe sobre um ringue, os salafistas deixaram-lhe um.

À invasão do palácio seguiram-se três dias de tumultos e de recolher obrigatório. Até que os arruaceiros radicais decidiram parar. “A Tunísia é um país seguro.” Disse-o o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, perante o seu homólogo francês, Jean-Marc Ayrault, há dois dias, em Paris.


Mas três dias bastaram para morrer uma pessoa e centenas ficarem feridas. Três dias bastaram para que vários artistas fossem ameaçados de morte, com os seus nomes, fotografias, moradas e números de telefone espalhados pelas redes sociais – e alguns dados publicados também num jornal criado depois da revolução.

A série de fotografias Liberté au bout de la nuit (“Liberdade no fim da noite”), de Wassim Gholzani, de 26 anos, não é sobre religião. Mas a cabeça do fotógrafo tem um preço na Internet. Tudo porque terá publicado imagens das obras que irritaram os salafistas. É preciso continuar a trabalhar, diz-nos numa troca de emails. “Se cedermos às ameaças, caímos na autocensura.”

Como se isso não bastasse, o xeque Houcine Laabidi, imã da Mesquita de Zaitouna, em Tunes, a mais importante do país, apelou, num dos seus sermões, à morte dos “artistas descrentes”. Chegou a ser anunciado que tinha sido afastado, mas Laabidi disse à AFP que continuaria à frente da mesquita.

Entre as ameaças, os artistas acreditaram que ao menos um homem no país poderia protegê-los. Foram ter com o ministro da Cultura, Mehdi Mabrouk, que lhes voltou as costas. Porque a exposição não respeitava os valores do islão e algumas obras podiam, de facto, ser consideradas uma “provocação artística”.

“A arte deve ser bonita”, disse-lhes por fim. Será então o nome que Faten Gaddes dará à sua próxima obra, com o que sobrou da instalação: Jolie. Perante isto, os artistas lançaram uma petição online, num pedido de ajuda internacional.

“Isto é a prova de que este Governo não é um Governo, mas uma arma para o Ennahda garantir que se mantém no poder por dezenas e dezenas de anos”, diz Karim. “O que aconteceu vai muito para além de uma simples controvérsia em relação a algumas obras”, disse ao PÚBLICO a pintora e fotógrafa Héla Ammar, insultada por causa de uma fotografia com uma mulher nua. “Isto revela o estatuto precário dos artistas e a fragilidade do direito à liberdade de expressão.”

O episódio deste mês, com a invasão da Printemps des Arts, não é caso único. Escritores, jornalistas, cineastas têm sido agredidos ou insultados. Já aconteceu tudo isso ter sido filmado. Sem consequências. E ainda no início desta semana, um jovem desempregado de uma família pobre viu ser confirmada, em recurso, a pena de sete anos e meio a que tinha sido condenado por publicar na sua página do Facebook cartoons de Maomé considerados ofensivos. Por tudo isto hoje será dia de os artistas se unirem num protesto, em Tunes, organizado por associações da sociedade civil e de artistas. Um protesto de reprovação ao Ministério da Cultura. Contra a censura. Hoje “pode acontecer de tudo”, resume Karim. “Ainda não sabemos quem faz o quê na Tunísia”. Não se percebe se o Ministério do Interior controla os polícias ou não, ou qual é o verdadeiro papel do Exército. De uma coisa está certo: os salafistas obedecem ao Ennahda. “São o braço armado do Governo. O que é que pode ter acontecido para virarem o país de pernas para o ar por três dias e pararem de repente?”

Ao telefone de Tunes, a coreógrafa fundadora do Ballet Nacional Nawel Skandrani, que vai abandonar a Tunísia porque se recusa a trabalhar com dinheiro de um Governo islamista, com governantes a quem “a barba cresceu depressa”, está satisfeita com uma coisa: “Eles sempre quiseram dividir os artistas e pela primeira vez estamos juntos.” Como ela há outros, incluindo programadores que já disseram que boicotarão os festivais que organizaram.

“Isto é uma emergência!”

Nawel é a mulher loira que, numa das conferências do Próximo Futuro, se levantou quando já tinha terminado o tempo para perguntas e disse: “Isto é uma emergência!” Uma emergência porque há artistas ameaçados de morte por fazerem o mesmo que faziam há meses e há anos. Uma emergência porque depois dos artistas virá o resto.

Como grande parte das tunisinas, Nawel nunca usou lenço. Habib Bourguiba, que Ben Ali derrubou em 1987, deu às tunisinas as leis de igualdade e protecção mais avançadas da região. Fez mais do que isso: retirava com as suas mãos os lenços que cobriam os cabelos das mulheres que o saudavam na rua. Foi o primeiro Presidente da Tunísia e decidiu que o país seria laico. Ben Ali continuou a ditadura do antecessor – que gostava de se mostrar moderna e aberta ao turismo, mas torturava e prendia opositores, acusando-os de islamismo ou terrorismo. Os artistas não se metiam com a política e eram deixados em paz – Nawel não se lembra de nenhum ter sido preso.

“A censura ao sagrado está institucionalizada”, disse o cartunista Z à France 24. É o cartunista a quem Karim publicou, logo depois da queda de Ben Ali, um livro que nos garante que não publicaria hoje.


O jogo deste Governo, diz, é o mesmo de Ben Ali. O jogo do medo. “Eles [o Governo] provocaram as manifestações. Houve feridos, mortos, o Exército na rua. Amanhã os artistas não vão voltar a correr riscos, os jornalistas vão evitar falar em determinada pessoa e os editores não vão publicar determinado livro. Eles nem vão precisar de agir. Isto chama-se autocensura e é bem conhecido do tempo de Ben Ali.”

Este artigo foi originalmente publicado no jornal Público de 30.06.2012.

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