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Bens de segunda necessidade

fotografias de Nuno Milagre

Não há trabalho, não há dinheiro, não há nada para fazer, no entanto é preciso levar algum para casa; para alimentar os filhos, os pais, o neto, a avó, ou toda a família. Nas metrópoles africanas reina a desprotecção social e falta o trabalho. O desemprego não se lê nas estatísticas, vê-se nas ruas. Por todo o lado, desocupados se prolongam em conversas, cirandam pelos passeios, procuram uma safa à sua medida.

Uma solução é tentar vender alguma coisa. Mas não tendo uma loja, porque não ir directamente aos clientes? É o que fazem os vendedores de semáforo. Juntam-se nos cruzamentos e abordam os automobilistas parados, tentando vender a sua mercadoria. Fichas triplas, limpa pára-brisas, cordas, molas, cadernos escolares, cinzeiros, bibelôs, cigarros, fitas métricas, pilhas, pastas de dentes, ventoinhas, sabonetes, gravatas, óculos escuros. Há de tudo em pontos estratégicos onde os carros se acumulam e condutores e passageiros dispõem de tempo para serem convencidos a levar alguma coisa para casa. No trânsito de cidades como Dar-es-Salam, Luanda, Abidjan, Lagos, e tantas outras, os engarrafamentos aumentam todos os dias e os vendedores de semáforo tentam a sorte com a sua variada gama de objectos utilitários, coisas que estejam mesmo a fazer falta ou que possam vir a dar jeito de hoje para amanhã.

Os vendedores de semáforo são auto-suficientes. Trata-se de um negócio ágil  e pequeno, em que cada um carrega toda a sua mercadoria, fazendo de si um expositor com mobilidade entre os carros. Trabalho informal e de estrutura leve, vendem objectos que possam transportar em quantidade e variedade. Vale tudo: artigos de escritório, de cozinha, decoração, higiene. Tesouras, fruta da época, extensões, mochilas, capulanas, cabides, lápis de cor, bolinhos, pastilhas elásticas, panos de cozinha, despertadores, triângulos para o carro, canetas, perfumes.

Parecem jovens e adultos empreendedores, mas a maior parte trabalha por conta de outrem. Um patrão invisível terá um armazém cheio de artigos made in China ou lá perto, que saem à consignação. A margem de lucro para os vendedores de semáforo é curta, ou nula se nada venderem. Não chega a estes cruzamentos a atenção das ONG, passam por aqui apenas os seus jeeps espalhando o CO2, mas sem espalhar o micro crédito para que estes comerciantes possam investir e vender por conta própria.

Alguns rapazes parecem muito novos para andar a vender na rua, deviam estar na escola ou a brincar, outros parecem já velhos demais para tão precária profissão. Vender; tentar vender aos que abrandam no trânsito e que muitas vezes fecham o vidro ou enxotam os vendedores, é uma solução de recurso para quem não encontra outra forma de arranjar dinheiro para levar para casa. Não prestigia, mas não envergonha, é um trabalho honesto, no limite da informalidade e da precariedade.

Do Cabo ao Cairo

Todos os dias os vendedores voltarão ao seu cruzamento, à sua encruzilhada, agitando e promovendo os seus artigos de conveniência, bens de segunda necessidade, coisas que dão jeito, ou que poderão vir a dar jeito de hoje para amanhã: bolsas para telemóvel, autocolantes tipo “no smoking” ou “WC”, relógios, pentes, conchas para sopa, cadeados, flores, cabides, cotonetes, amendoins, lâmpadas de cozinha, isqueiros.

A isto se chama o mercado informal: sem papéis, sem estabelecimento comercial; não há recibos nem garantias, não há balcão nem papel de embrulho.

Toda a África é um mercado informal, do Cabo ao Cairo, de Maputo a Marraquexe, seja nos mercados, nos semáforos, nos passeios, nas estações rodoviárias ou em qualquer muro ou pedaço de chão onde se possam expor produtos. Mas se o mercado informal é caracterizado pela ausência de registos e a invisibilidade perante o fisco, vamos encontrá-lo também longe do sol ardente e da poeira da estrada, nos gabinetes de ministérios, em carros pretos com vidros fumados, nos bares de hotéis. É também nestes ambientes, sob a brisa forçada do ar condicionado, que se fazem muitos negócios informais: lucros do petróleo que não entram nas contas públicas e informalmente se dissolvem, tráfico de influências, comissões de dez, vinte, trinta por cento sobre adjudicações de obras e negócios, rentabilização de informação confidencial, tráfico de armas e de diamantes.

No fundo, estes miúdos que vendem aos automobilistas parados nos semáforos e nos engarrafamentos, encontram-se à margem das mesmas leis que os tubarões do poder e dos negócios, simplesmente uns correm atrás do prejuízo para ganhar uns trocos, os outros, embolsam milhões entre apertos de mão e umas risadas sem pudor. Todos na maior das informalidades.

Toda a África é um mercado informal do Cabo ao Cairo, de Maputo a Marraquexe. E encontra-se de tudo, sem ivas, sem papeladas, e às vezes até sem ter que sair do carro: subornos, desfalque, especulação, benefícios, manipulação, corrupção. Coisas que dão mesmo jeito, ou que poderão vir a dar jeito de hoje para amanhã.

 

Publicado na revista Fugas do jornal Público em Outubro de 2008

 

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