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Coffee-break na branca do Lucapa

O aeroporto ficou para trás, ele é apenas a montra dos rostos que chegam e partem, dos que esperam e dos que abalam, o resto é o vazio duma pista que se enche regularmente de diamantes com e sem etiqueta.

O complexo da De Beers é apenas uma coordenada ilusória; à parte do mundo lunda-tchokwe que ali se edificou, entre as paredes que falam em inglês, hesitam em falar português e onde o tchokwé ficou soterrado, longe dos lençóis luzentes de pedras preciosas.

A fronteira com o Congo oferece apenas a alusão à famosa vida das fronteiras, dos contrabandos, dos kilapes, da iminência da sobrevivência, dos idiomas que se fusionam em dialetos de notas musicais quase intocáveis, dos filhos feitos à sombra do camião de carga que espera voltar à estrada e das incontáveis gasosas.

Todos constituem referências importantes, e conhecidas, mas para um mundo que não corresponde na íntegra ao universo Lucapa per si. As novidades da vida citadina não chegam até lá ou se sim vão já adornadas com coisas que não pertencem àquelas ruas de barro, geometricamente traçadas do centro da cidade.

É aí, no coração da cidade, que se vai beber a data do próximo pedido, a hora da chegada do governador à província, o nome da mais recente namorada do pula (branco) da De Beers e as novas da comunidade de imigrantes do Congo. Ali não vão só as gentes do Lucapa, passou a ser referência do senhor engenheiro sul-africano, da executiva caluanda em missão de consultoria, das mais jovens em vestidos curtos e justos em busca de uma refeição paga em dólares e da simples dona de casa, ávida de assunto para partilhar com a madrinha à hora do funge. Ali, na mítica loja da dona Teresa que já vem desde os tempos da guerra, vive-se ao ritmo do sabor da Cuca, na calma de quem não sonha com o que não vê mas na intensidade de qualquer Belas Shopping.

Mesas na rua servem o mais apreciado churrasco da cidade, talvez porque raramente há outro ou talvez seja deveras delicioso; percebe-se que toca “Angola” de Matias Damásio por entre o som ensurdecedor do gerador; o pula passa em zig-zag entre os tanques de água à venda, compra um maço de tabaco, acende ansiosamente um cigarro e ao colocar o maço no bolso da camisa de riscas comprada na última viagem a Londres é abordado por uma jovem dos seus 17 anos, de salto alto e lábios pintados de vermelho; o tio Domingos, vizinho e cliente assíduo, suspende repentinamente o relato sobre o facto do governo, diz baixando o tom, ainda não ter renovado a concessão de exploração de diamantes da De Beers, e observa cada detalhe da reação do moço pula enquanto se refresca com uma cuca. A bebé mais branquinha da cidade chora ininterruptamente no colo da avó, a dona Teresa, e o tio Domingos reclama porque não consegue perceber o que a jovem dos saltos altos diz quase ao ouvido do pula.

A executiva caluanda chega, já em jeans, sorri, cumprimenta a dona e acena aos clientes habituais daquele mais que super-mercado. Passeia-se entre os curtos corredores procurando algo que lhe desperte a atenção, o apetite ou apenas a sensação de passar o tempo sem dar por isso. Há pão fresco, botijas de gás, cadernos tipo escolar com desenhos florescentes, uns sapatos roxos por cima de uma caixa de cartão com os dizeres made in Portugal e uma estante a transbordar de cuecas de todos os tamanhos para homem. Tropeça em duas meninas de tranças coloridas que tentam alcançar os lápis de cor perto da entrada, por cima dos quais vê uma blusa de decote ousado e ornamentada de brilhantes; dirige-se até ao balcão para perguntar à dona Teresa o preço mas em seguida cruza-se com a Tia Adélia, mãe da colega de trabalho, carregada de bolsas de milho, arroz e feijão; cumprimentam-se amigavelmente e a tia, senhora simples mas bem-posta e de lide fácil, conta-lhe as novidades que a filha não tinha partilhado, por descrição e respeito hierárquico, à hora do almoço; a executiva não toma atenção às novas mas deixa-se envolver pelo entusiasmo da senhora e esquece a blusa por cima de um monte de fraldas que quase fazem cair os frascos de perfume.

A jovem caluanda despede-se da tia Adélia e paga um sumo enquanto atende o telemóvel; “estou na dona Teresa” responde; a dona Teresa conta os kwanzas mas a natural astúcia de comerciante e os muitos anos de negócio permitem-lhe fazer o troco ao mesmo tempo que escuta a conversa e intui o pouco conhecimento do forasteiro que telefonou e que insiste em pedir referências. “Ele que pergunte pela loja da branca”, diz dona Teresa, a branca que, sem saber, se foi tornando no coração palpitante da cidade do Lucapa, naquela que é uma versão angolana da loja chinesa da Europa, com um sabor a cantina mexicana e todos os sons e detalhes do próprio quintal africano; é ali que os boatos se tornam relatos para chegarem, duas ruas cima, a meros fatos; só quando a branca põe o cadeado à porta então Lucapa dorme.

As poucas mesas da rua tinham enchido rapidamente assim que o sol se pôs; a jovem executiva aproxima-se de uma das mesas seguida pelo olhar atento do Tio Domingos e do cunhado, sentados na mesa do lado; cumprimentam-na e tentam saber novidades da jovem durante a temporada fora da província; ela sorri e dá uma resposta evasiva. Faz calor, a jovem dá um golo no pacote de compal, senta-se e abre o livro que acabara de encontrar lá dentro; a capa cobre-lhe o rosto, amigável mas discreto. O Tio domingos esgueira-se no sentido da mesa da jovem, foca esforçada e indiscretamente o olhar no capa do livro e dirige-se com ar de espanto e intriga para o cunhado, repetindo bem alto o que acabara de ler “Casamentos Blindados!”.

Eu nunca lá estive, a mim só me contaram, mas imagino que assim seja….

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