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Como um relógio parado – sobre a exposição de Daniel Blaufuks

O amor é a estranheza.

Herman Boch

É uma ideia aparentemente banal: ao longo de um dia, um relógio, mesmo estando parado, acaba por estar matemática e inexoravelmente certo duas vezes. Por si só, a ideia não tem qualquer tipo de importância, trata-se de uma conclusão a que facilmente se pode chegar. Ao mesmo tempo, contudo, é uma ideia de tal maneira rica e intensa de um ponto de vista metafísico, que pode funcionar como uma revelação conceptual. 

Há na língua grega duas palavras para «tempo»: Cronos e Kairos. De um lado, o tempo cronológico, que flui, um somatório de sucessivos eventos. Do outro lado, o tempo da de-cisão, da escolha. O tempo que marca, que compromete e no qual somos atirados para um presente irredutível que tem em si a sua própria consistência. É neste sentido que as obras de Daniel Blaufuks se encontram fora do tempo. Há uma suspensão da subjetividade e vontade na sua relação com o real. Como se ficássemos entre parênteses, descontextualizados. É um pouco da lógica proustiana, misturar o instante com a eternidade. Estar no tempo e ao mesmo tempo fora dele. Assistir ao espetáculo do mundo e ver que o seu fluxo não nos compromete, numa serena promiscuidade entre passado, presente e futuro. 

Atualmente patente no Museu da Cidade e comissariada por Sérgio Mah, a exposição Hoje, nada — frase de Cesare Pavese que descreve um dia no seu diário, encontrado depois da morte do autor numa pasta verde, na qual estava escrito a lápis vermelho e azul: «Il Mestiere | di Vivere | di | Cesare Pavese», publicado em Portugal pela Relógio d’Água com o título O Ofício de Viver — oferece um conjunto de fotografias e objetos que sugerem uma imprevista visão do mundo. Diz Nuno Crespo no seu artigo Um mundo igual a este, mas ligeiramente diferente: “O mundo criado pelo artista é um mundo que quer salvar outro mundo, impedir a sua dissolução na mudez, no sem imagem, no sem forma. (…). E a fotografia é o lugar onde as coisas e as imagens se acomodam numa unidade de sentido, unidade indiscernível, compacta e subsistente que permanece actuante e potente: continuamente projecta as suas consequências e sombras sobre aquilo que há.” (Nuno Crespo, 2008). 

Emolduram-se fotografias e emolduram-se objetos, incluindo um espelho por baixo do qual está escrito a lápis “eternal camera”. Lugar do outro como aquele que é visto, mas também como aquele que nos vê, algumas destas fotografias apontam para uma ausência: um prato vazio, um escaparate para joias sem as ditas, garrafas de água abandonadas num corredor de supermercado enferrujado. Há também objetos obsoletos como cassetes áudio e até os pequenos diapositivos, que o olho tem de se esforçar para ver pois estão expostos e não projetados. Tudo sugere que a experiência do mundo está muitas vezes ligada a um exílio, a um desequilíbrio estrutural. Uma mão aberta, cuja palma está vazia, recorda-me Jean-Luc Godard nas suas Histoires du Cinéma: “A verdadeira condição do homem é pensar com as mãos”. A história do sentido é inexoravelmente uma história individual e subjetiva. O trabalho de Blaufuks parece continuamente testar os limites (ou os limiares) do que é, por um lado, fazer parte da História e, por outro lado, o que é desaparecer, ser apagado, ser extinto — como porventura o faça um relógio parado. São pormenores, vestígios, resíduos que atestam da estranheza da vida, da natureza do instante e que procuram responder à pergunta «O que é ser humano?». 

Está nos seus últimos dias esta exposição que vale a pena visitar no Pavilhão Branco do Museu da Cidade. No dia 23 de novembro, às 17:00, haverá uma conversa com Daniel Blaufuks, Sérgio Mah e Tobi Maier.


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