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Do silêncio a um outro hino, artistas portugueses com discurso pós-colonial

Mostra de vídeo Do Silêncio a Um Outro Hino com vídeos dos artistas Daniel Barroca, Jorge Santos, José Carlos Teixeira, Maria Lusitano, Monica de Miranda, Paulo Mendes e Rui Mourão (este último, o comissário da exposição) no Centro Cultural Português – Embaixada Portuguesa em Cabo Verde, na Praia (de 14 a 18 de janeiro, 15h-19h) e no Centro Cultural do Mindelo, na ilha de S. Vicente (de 28 de janeiro a 1 de fevereiro, 15h-20h).

 
Estes artistas propõem-nos uma reflexão artística sobre certos mitos, marcas e percursos que um certo passado ligado a África deixou num certo Portugal pós-colonial. D
e linguagens muito diferenciadas mas em comum o facto de terem todos nascido na década de 70 – entre o fim da ditadura e, na sua maioria, o início da democracia – são descendentes de um país com um passado colonial do qual já não participaram. Fazem parte da geração dos filhos dos últimos que ainda viveram a colonização e que posteriormente fizeram a descolonização (veja-se a esse respeito o vídeo de Paulo Mendes, uma ficção sobre a memória, construída com base num arquivo de imagens de militares em Angola).
Embora haja nestes artistas intensos percursos internacionais –  de estudos, expositivos, de vida – cresceram todos num Portugal pós-25 de Abril (assim o ilustra metaforicamente o vídeo de Jorge Santos, onde a ponte 25 de Abril, anteriormente chamada de ponte Salazar, parte e desliza Tejo fora, rumo ao mar). Vivem portanto num contexto onde as referências de um passado histórico “ultramarino” estão ainda vivas mas simultaneamente permanecem pouco faladas pelos seus intervenientes. São de um silêncio ensurdecedor (como se pode ver no vídeo de Daniel Barroca, onde fotogramas de antigos colonos portugueses em África foram cobertos por tinta-da-China que, se por um lado cobre e tapa, por outro estala e fende, acompanhados pelo som de um estranho vento que uiva).

vídeo de Paulo Mendesvídeo de Paulo Mendes
É pois, recorrendo à videoarte, como representação artística contemporânea do mundo, que vemos serem exorcizados fantasmas do nosso passado coletivo num presente construído ou reconstruído sobre o peso da História (no caso do vídeo Nostalgia de Maria Lusitano, pelo recurso à apropriação de imagens de arquivo de vídeos saudosistas dos anos 60 na “África portuguesa” vendidos atualmente a um público de “retornados”, onde a autora desenha o retrato de uma mulher em Angola totalmente alheada da situação militar e dos acontecimentos políticos que levaram à independência daquele país).
Estes 7 artistas fazem portanto parte da primeira geração portuguesa a viver após o fim de um ciclo de mais de 500 anos de “Descobrimentos”, “Impérios” e “Colonizações”, e têm nestes trabalhos artísticos um certo posicionamento crítico na exposição de dispositivos nacionalistas passados que continuam a perpassar direta ou indiretamente nos ecos das narrativas históricas estruturantes da construção de uma identidade portuguesa (como o espectro de D. Sebastião perdido em África e seus mitos ficcionais de um prometido regresso à grandeza perdida, evocados no vídeo de Rui Mourão por via de um quadro que deambula por um palácio tão antigo quanto Portugal). No entanto, neste novo ciclo histórico contemporâneo, em que o país volta-se para si e às suas fronteiras europeias iniciais, regressa simultaneamente com uma diferente identidade cultural. Uma identidade cultural construída também nessa relação com o outro: o negro, o cada vez menos exótico, o ex-colonizado (patente no trabalho de José Carlos Teixeira onde, num bairro social de Lisboa, imigrantes africanos de primeira e segunda geração cantam o hino de Portugal, reinventando criticamente frases e expressões que se substituem à letra original).

vídeo de Paulo Mendesvídeo de Paulo Mendes
É uma mudança de paradigma não só na relação de Portugal com África mas também na nova sociedade portuguesa daí resultante (metaforicamente patente no vídeo de Mónica de Miranda onde esta artista faz uma viagem de carro com familiares e amigos pela Estrada Militar, na periferia de Lisboa, confrontando a história do local – ligada à resistência de portugueses e ingleses às invasões napoleónicas – com a atual ocupação suburbana desse espaço por imigrantes dos PALOP).

Mais do que insistir no discurso recorrente do legado que Portugal deixou em África, este projeto pretende perspetivar o legado que ter estado em África deixou em Portugal.

 

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