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I am not here. eu estou aquI notas sobre um corpo-lugar acidental

Em 2003, num dos seus primeiros trabalhos – publicado no catálogo da exposição dos alunos finalistas do MA Fine Art Degree da Central Saint Martin’s College of Art and Design – intitulado Silence and Camouflage, Irineu Destourelles, que então assina ainda Irineu Rocha, escrevia: «And somehow I feel that I am not here, yet I have to be here and therefore I am expected to ensure this game». Um excerto de uma obra-texto em que o artista já coloca em cena uma das duplas centrais do seu fazer e pensar artístico: o corpo e o lugar na sua relação dialógica, tensional. Um lugar que é aqui simultaneamente real (físico, social, histórico), mental (imaginado) e psíquico (projetado e secreto), um lugar recomposto, um entre lugares, quase indizível1.

Paisagem Ex-Colonial com Diferentes Filtros, 2019Paisagem Ex-Colonial com Diferentes Filtros, 2019

Este é um lugar difícil, quase impossível de habitar, para receber e encenar um corpo em devir, aqui, o corpo do artista que é ao mesmo tempo – e no lugar da obra – autor, narrador e persona(gem). Num momento seminal do seu percurso artístico, Destourelles designa já um espaço de performatividade de um (ser) eu, de uma subjetividade construída com/pelo desejo do Outro. Este é um «jogo» para o qual Destourelles convocará a escrita e as imagens, alternadamente ou juntas, maioritariamente capturadas pela câmara, recompostas e reeditadas nos vídeos que são um dos meios (e palcos) mais profícuos e recorrentes da sua produção.

Em 2014, o artista investe o próprio campo da autoria para criar uma outra persona, Irineu Destourelles, com que passa a assinar os seus trabalhos. Dez anos após Silence and Camouflage, o artista incorpora e performa, divide e recompõe2, no próprio espaço da autoria, uma história vivida na primeira pessoa e uma história coletiva longa de quinhentos anos, iniciada com a ocupação e a exploração colonial, nomeadamente, nos territórios africanos.

O artista convoca um episódio simbólico e marcante desta história coletiva, na pessoa de Clémence Destourelles (Fort-de-France, 1816–Paris, 1910), mulher crioula da Martinica e esposa de Arthur Gobineau 3.

Irineu Destourelles produz um efeito de camuflagem que rememora os processos históricos da crioulização e das relações «inter-raciais», presentificando um real histórico violento e «patológico», o do colonialismo4, mas também o da descolonialidade5.

Nesse mesmo ano, Irineu Destourelles assina tendo como único elemento visual a escrita, o artista questiona a linguagem e as línguas no processo de perpetuação do discurso colonial em contexto pós-colonial. Interrompendo o silêncio, Destourelles constrói um corpus de novas palavras, a partir do cruzamento do latim e do crioulo cabo-verdiano, para nomear e visibilizar as estruturas sociais de poder do legado colonial. Este corpus é igualmente uma reflexão crítica e poética sobre a expe e entre lugares. Nascido em Cabo Verde (Santo Antão) em 1974, de onde parte aos quatro anos de idade para Portugal com a sua família, Destourelles regressaria a Cabo Verde pela primeira vez entre 2009 e 2012, para viver e trabalhar. Este regresso a Cabo Verde está na origem de um outro trabalho, o vídeo Ex-Colonial Landscape with Different Filters (Paisagem Ex-Colonial com Diferentes Filtros), 2019, um dos quatro novos vídeos concebidos especificamente para a exposição, que junta a escrita e a imagem. Uma obra que abre a exposição e que se apresenta como uma das possíveis declinações do título do projeto: Subtitulizar/Subtitling. Este título remete para uma ação, o «fazer» dos subtítulos, a forma verbal do substantivo «subtítulo», um neologismo em português criado pelo artista que evoca a presença habitual dos subtítulos ou legendas em português nos filmes estrangeiros, na televisão e no cinema, uma memória nostálgica dos tempos da infância. Esta presença constante dos subtítulos junto às imagens amplia a relação entre a imagem e o texto falado, entre significado e significante, ou seja, suspende as relações binárias estabelecidas, propondo um «terceiro texto» nesta relação do espectador com o filme. Esta é também uma ação que produz permanentemente tradução, que negoceia em permanência duas línguas, uma negociação difícil entre estruturas linguísticas e culturais que o artista aproxima da própria negociação social e cultural dos indivíduos da diáspora e que se prolonga no interior das próprias comunidades da diáspora, entre diferentes gerações.

Realizado a partir de filmagens recolhidas em 2009, no momento do seu reencontro com Santo Antão, Ex-Colonial Landscape with Different Filters (Paisagem Ex-Colonial com Diferentes Filtros) dá a ver o Vale da Ribeira do Paul numa imagem que a câmara-fixa capta em contínuo e cujo movimento é dado pela incessante aplicação de filtros de cor viva, sujeitando a imagem a um processo de abstração, de mutação e, por vezes, de quase apagamento: uma imagem fantasma. A cor, ou a sua ausência, aqui como nos outros trabalhos, introduz um elemento poético e político, uma cor que preencheria os espaços com a força de (re)imaginar o lugar onde o corpo, ausente, se pudesse finalmente fixar. Esta é também uma paisagem atravessada pelo contínuo da história, um «ex-» que liga o passado ao presente. Uma paisagem que, como os corpos – os corpos negros –, tem uma inscrição na história colonial que determina ainda a sua condição no presente. Já o texto, que corre no topo da imagem, emerge da aglutinação de excertos de letras de canções pop-rock portuguesas dos anos 1980, cantadas em português6, e de citações de Jonas Savimbi e de José Eduardo dos Santos nos anos da guerra civil em Angola.

Destourelles reúne e reorganiza no espaço da escrita palavras de amor e de guerra, ancoradas numa construção identitária: o Portugal pós-revolução no momento da sua integração na «Europa democrática capitalista»7 e a Angola pós-independência imersa numa guerra civil. O texto, que Destourelles traduz e apresenta apenas em inglês, justapõe esses dois mundos paralelos mas alheios, que a televisão da sua infância junta por momentos através das imagens da longínqua guerra em Angola, uma guerra também ela falada em português.

Os corpos surgem em Several Ways of Falling Ordered Differently (Várias Maneiras de Cair Organizadas Diferentemente), 2019, um vídeo em mosaico, a preto e branco, em que vemos o corpo do artista a cair repetidamente, de diferentes maneiras, diante do espectador – de frente ou de costas. Destourelles filma-se na horta do pai, um espaço doméstico, seguro mas fechado, onde o pai tenta recriar e fixar uma paisagem da sua terra natal, plantando inhames e cana-de-açúcar. Uma horta suspensa entre a terra de origem e a terra de acolhimento, um lugar de cultivo que determina  igualmente um espaço de trabalho, aludindo a uma certa performatividade de género projetada sobre o corpo masculino negro. O corpo encontra-se face a um muro de um quintal, e para lá dos muros podemos apenas vislumbrar o espaço público exterior. As imagens da queda são vistas em câmara lenta, para uma queda que o artista quer encenada e controlada. Um corpo em queda mas igualmente um corpo que resiste, determinando as condições da sua própria queda. Estas imagens de corpos negros em queda e que jazem no chão assemelham-se a imagens de fuzilamento, de mise-à-mort (como não pensar nas representações de Francisco Goya em O 3 de Maio de 1808 em Madrid ou nos Desastres da Guerra).


Neste trabalho, Destourelles evoca sobretudo uma violência quotidiana e surda que se abate sobre os africanos e os afrodescendentes da diáspora, um estado de violência sobre a psique – a construção e a projeção de um eu que é sempre um outro –, mas também uma violência real, ou seja, uma «sobre-exposição estrutural à violência social e política» dos corpos negros, sujeitos a uma constante «contaminação da Vida pela Morte»8.

A morte paira em One Hundred and Two Houses on Fire (Cento e Duas Casas a Arder), 2019, um vídeo a preto e branco em que se sucedem cento e dois desenhos de casas em chamas que evocam memórias duma África a autoconsumir-se, revelando ao mesmo tempo a precariedade do conceito da casa «que para mim como sujeito da diáspora é um tópico complexo»9. Estas são casas a arder de dentro em combustão interna, num processo de destruição violento, interior, caótico, algo que se aproxima da experiência do trauma. Destourelles desenha as casas, a esferográfica e a marcadores, formando as linhas de contorno geométricas que constroem os muros, as portas e as janelas fechadas, e as manchas de fumo negro em arabescos obsessivos que por vezes parecem engolir as casas. São como bunkers ou prisões, casas frias e isoladas, ocupando as margens da imagem, no meio de paisagens desoladas, angulares e inóspitas. Como nos trabalhos anteriores, o artista recorre à quantificação – cento e duas casas, diferentes filtros, várias maneiras de cair –, um processo de abstração que introduz um elemento de distanciamento, contra qualquer veleidade de sedução: estamos numa operação de tradução e não de identificação. Face às imagens, face à dor, somos quase sempre estrangeiros. O silêncio impõe-se de novo.

O tema da casa regressa em Supernatural Forces, Mental Health and Detail from Indoors (Forças Sobrenaturais, Doença Mental e Detalhe de Interior), 2019, o último dos quatros vídeos concebidos para o projeto Subtitulizar/Subtitling. Destourelles filma com a câmara-fixa um detalhe no interior de uma casa, a casa da mãe. Filma um buquê de flores de plástico colorido que a imagem devolve a preto e branco. Sobre esta imagem, cujo movimento é quase impercetível, o artista aplica um filtro branco, produzindo um efeito de quase apagamento, ameaçador. O interior de uma casa que alude «ao que eu interpretava na juventude como a obsessão que minha mãe tinha por flores de plástico e mobiliário na sua procura de tentar criar um ambiente doméstico perfeito como refúgio a um contexto social por vezes hostil»10.

A casa é aqui um espaço doméstico de confinamento, mas também de reinvenção, que faz lembrar as teorias e as práticas artísticas feministas dos anos 1970. O artista volta a colocar no centro do trabalho a experiência violenta da diáspora face à dualidade linguística, cultural e geográfica, acompanhada pela sensação de perda (de queda), de diferença e de oposição. E a escrita volta a correr com as imagens, num texto que é inspirado num ensaio académico anónimo sobre as atitudes em relação à doença mental em Cabo Verde, em que o autor parece confundir o contexto português e o cabo-verdiano. Estados patológicos como «doença da terra», «doença da cabeça cansada» ou ainda «doença feita com-a-mão» aludem aos estados de ansiedade, precariedade e vulnerabilidade destas comunidades, mas também de perda de localização em relação ao espaço cultural e geográfico que os sujeitos ocupam. Traduzem igualmente o estado de negociação intensa entre as «forças sobrenaturais negativas» e as estruturas sociais e políticas desiguais, num lugar a meio caminho entre a terra de origem e a terra de chegada.

Irineu Destourelles. Subtitulizar / Subtitling

inauguração na quinta, 26 set, 18:30, Espaço Projeto – Coleção Moderna, Entrada livre Fundação Calouste Gulbenkian 
A obra de Irineu Destourelles (Santo Antão, Cabo Verde, 1974) centra-se nas questões da representação e da linguagem que o artista trabalha no cruzamento entre o vídeo e a escrita. Para a exposição, o artista desenvolve um projeto imersivo que interroga o legado colonial e o seu impacto nos indivíduos e na construção das relações sociais e de poder, partindo da sua própria condição de diáspora.
Exposição com curadoria de Rita Fabiana. 

  • 1. Vide Paul Ricoeur, Sobre a Tradução. Lisboa: Edições Cotovia, 2005. Nesta obra, o autor questiona as línguas (e a linguagem) e a sua tradução na sua relação com o mundo, o «dizer o real» ou dividir e recompor o real, pp. 56, 60 e 61.
  • 2. ibidem
  • 3. o autor de Essai sur l’inégalité des Races, publicado em 1853. Esta institucionalização e naturalização dos conceitos de raça e de racismo, pela construção discursiva de uma ideologia da dominação que fundamenta e perpetua «a desumanização, a expropriação e a exploração dos Não Europeus»Vide Norman Ajari, La Dignité ou la mort. Ethique et politique de la race. Paris: Editions la Découverte, 2019, p. 18. Tradução nossa.
  • 4. Vide Frantz Fanon, Peau noire, masques blancs. Paris: Editions du Seuil, 1952-1971; e Aimé Césaire, Discours sur le colonialisme, suivi de Discours sur la Négritude. Paris: Editions Présence Africaine, 1955-2004.
  • 5. Vide Norman Ajari, La Dignité ou la mort,pp.12-20.
  • 6. Letras de canções dos Taxi (Chiclete), UHF (Mau Rapaz), António Variações (Eu Estou Além e O Corpo É que Paga), Lena d’Água (Perto de Ti); Xutos & Pontapés (A Minha Casinha); Salada de Frutas (Olha o Robot); Grupo de Baile (Patchouly); Heróis do Mar (Amor).
  • 7. O texto cita o artista Irineu Destourelles numa das muitas conversas e e-mails trocados com a curadora entre 2018 e 2019 no processo de trabalho para a exposição Subtitulizar/Subtitling.
  • 8. Vide Norman Ajari, La Dignité ou la mort, pp. 10 e 12. Tradução nossa.
  • 9. Irineu Destourelles, ibidem.
  • 10. Irineu Destourelles, ibidem.

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