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Kalashni-Cola

No país que tem uma Kalashnikov na bandeira, percorríamos um longo caminho a pé, íamos ao encontro de um músico para gravar temas seus para a banda sonora de um documentário. Tobias Dzandiwandira, talento praticamente desconhecido, ou não vivesse ele com a sua extensa família a hora e meia de caminho da estrada mais próxima, no centro oeste de Moçambique, já perto do Zimbabué.

Quem nos guia pelos trilhos é outro músico, um jovem, nome artístico: Kidmore France. Trabalha numa rádio comunitária financiada por uma ONG, a Rádio G Som no Chimoio, a cidade onde nós temos estado baseados. Faz muito calor, Kid dissera-nos que Tobias não morava longe; mas isso é relativo já se sabe, mais vale pensar que continuamos o nosso passeio matinal mesmo se virou numa caminhada ao meio-dia, quando as sombras são mais curtas e os metros mais longos.

Passo a passo, o calor, o silêncio e o caminho tomam conta de nós.

Uma pequena barraca de comércio num cruzamento é razão para uma pausa. O vendedor entusiasma-se, não é todos os dias que por ali passa um grupo assim, seis forasteiros de uma só vez, quatro negros e dois brancos, carregando material não identificável e uma geleira azul. A barraca tem poucos produtos à venda, apenas o habitual em sítios assim desterrados: óleo, sal, pilhas, sabão, fósforos e Coca-Cola, refresco servido à temperatura ambiente. Não compramos nada porque trouxemos da cidade tudo o que precisamos, mas o diálogo também é comércio e ficamos na troca de palavras. À boleia da conversa o lojista diz que tem ali uma Kalashnikov, embora não a mostre. A região está em paz e o volume de negócios não justifica a arma, mas há objectos que passam a fazer parte da vida, mesmo quando deixam de ser necessários.

Em frente da barraca, perdido da sua manada, um tanque militar aponta para o passado. Despojos de guerra que perderam a batalha contra a ferrugem e a erosão da História.

Dizem que os Estados Unidos da América deram a Coca-Cola ao mundo, e a União Soviética, a Kalashnikov. África não o poderá negar. Cada uma à sua maneira, adaptaram-se perfeitamente à geografia e ao terreno social e político do continente. Assim chegaram a todo o lado e podemos encontrar exemplares de qualquer uma, seja nas cidades, à porta do shopping da moda, seja no mais remoto local.

Tanta convivência com a arma mais popular do mundo, deu origem ao diminutivo AK-47, mais simples e carinhoso que Avtomat Kalashnikova 1947. Ao longo de décadas, esta arma encontrou nos conflitos africanos um mercado inesgotável: das lutas pela independência aos golpes de Estado. A Kalash serve o grupo rebelde emergente ou a ditadura musculada. Marca presença nos dois lados de qualquer conflito, sem distinção de credo ou orientação política; resguarda bandidos e seguranças privadas.

Com o final da Guerra Fria, enormes arsenais bélicos entraram em crise de vocação, sem demoras, chegou-se a uma solução: África. Depois da queda do muro de Berlim, o continente foi inundado com mais e mais armas, uma catástrofe artificial com desconto de fim de estação. Velhos brinquedos de novas repúblicas, grandes negócios para os generais ex-soviéticos e ex-socialistas, feitos empresários da desgraça de outros.

Em todos os 53 países africanos se vende Coca-Cola, o continente representa 7% das vendas mundiais da empresa. Não parece muito, mas segundo Neville Isdell, ex-CEO da Coca-Cola, é a zona do globo onde mais crescem as vendas e por isso uma grande aposta da multinacional. A sua fórmula de sucesso vingou como no resto do mundo, exportar o elixir e, basta juntar água, gás e engarrafar.

Cada qual com os seus truques e segredos, que diz-se, dão alma ao negócio, a Coca-Cola e a Kalashnikov espalharam-se pelo continente como incêndio em noite de vendaval e mantêm-se líderes indiscutíveis nos seus segmentos de mercado. Mesmo onde não há rede telemóvel ou electricidade é possível encontrar estes ícones do século passado. Em algumas regiões africanas, esta arma e este refrigerante continuam a ser mais comuns que o rádio ou a bicicleta, mais acessíveis que livros escolares, água potável e medicamentos, redes mosquiteiras ou latrinas, sobretudo no mundo rural, longe das rotas do progresso e dos governantes. Durante o genocídio no Ruanda em 1994, havia mais Kalashnikovs no país que automóveis e bicicletas juntos.

Por ter sido uma peça importante para alcançar a independência, Moçambique mantém a sua Kalashnikov na bandeira nacional, a par de uma enxada e um livro. Nenhum país ostenta ainda a Coca-Cola na bandeira, mas o mundo pensa que já viu tudo, excepto o que está para vir. Teremos estado mais longe dessa cerimónia de glamour, entre poeira, carros pretos e cabritos, discursos optimistas e comoção: uma marca de prestígio que acode a um Estado em maus lençóis. A Somália seria uma candidata bem qualificada. Executivos da Cola tomando conta dos assentos da governação: administradores, assessores, analistas, consultores, especialistas, reunidos para pacificar e gerir um país caótico. Suando de fato e gravata, mas seguros no seu pragmatismo alicerçado em apresentações PowerPoint que combinam a mestria empresarial e o multimédia. Chamando à razão senhores da guerra, facções regionais e religiosas e a poderosa máfia das armas. Um fiasco? Como foi a intervenção militar de há 20 anos atrás na Somália.

As crianças correm entre as roupas que secam no estendal. No pátio, o velho Tobias Dzandiwandira está sentado a tocar m’bira e a cantar: “Se queres namorar aquela mulher, pergunta no seu vizinho”. Ele vive no meio do mato, desconhece as agruras de uma reunião de condomínio, mas parece-me que entende de direito internacional.

 

Publicado na revista Fugas do jornal Público em Outubro 2008

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