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Marepe em paralaxe

Marepe, A mosca vermelha, 2015 Marepe, Collection Gallery Luisa Strina, photo Edouard FraiponMarepe, A mosca vermelha, 2015 Marepe, Collection Gallery Luisa Strina, photo Edouard Fraipon

Quem chega hoje ao quarto andar do edifício da Estação Pinacoteca, em São Paulo, depara-se, ao sair do elevador, com um curioso dispositivo. Trata-de de Cabeça acústica (1995), obra de Marcos Reis Peixoto, o Marepe, artista que abre sua primeira exposição individual em um museu brasileiro. A obra em questão, construída com bacias de alumínio, catalisa uma experiência acústico-perceptiva que, diferentemente do material que a constitui, não tem nada de trivial. Instalada como uma espécie de epígrafe à mostra “Marepe: estranhamente comum”, com curadoria de Pedro Nery, a obra encarna aspectos da poética do artista que vemos se desdobrar nas salas adjacentes, onde 32 obras estão organizadas a partir de três ações elencadas pelo curador como eixos fundamentais para a compreensão desta produção: mover, transformar, condensar.

A opção curatorial de organizar as obras de Marepe a partir destas três ações estruturantes, cria um contexto para a recepção desta produção que se esquiva de algumas armadilhas. A primeira delas consiste na hipertrofia do contexto local, referente à cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, para a compreensão desta produção sob a chave do local, do regional ou, mais simplesmente, do exótico. Marepe nasceu, vive e trabalha na cidade baiana, ocupando um lugar singular no circuito de arte brasileiro, concentrado nos centros urbanos do sudeste do país. A isto, acrescenta-se o fato de que materiais, formas e elementos caros à realidade social e doméstica da cidade de Santo Antônio de Jesus comparecem ostensivamente em seus trabalhos. Se não convém negligenciar o rico contexto no qual o artista desenvolve sua prática; por outro lado, apelar à cidade de Santo Antônio de Jesus para nos orientarmos diante de suas obras pode culminar em uma leitura arriscada, que procura estabelecer regimes objetivos de causalidade para abordar uma poética na qual o imaginário, o lúdico, o biográfico e o político se misturam.

Outra armadilha de que “Marepe: estranhamente comum” nos protege é aquela na qual noções forjadas no interior de outras poéticas – o ready-made duchampiano, por exemplo – nos impede de ver, efetivamente, o que Marepe cria com seus filtros de barro, desemboladeiras, pás, bacias, baldes, carretéis de linha e guarda-chuvas. O próprio artista nega que seus trabalhos sejam ready-mades e prefere defini-los como nécessaires, uma vez que os objetos de que se serve para a construção das obras são simbolicamente saturados de um sentido vinculado à sobrevivência. Mas a transformação destes objetos, familiares às classes trabalhadoras, em obra de arte não tem por finalidade uma crítica negativa da arte. O projeto de Marepe não se alinha à ideia de antiarte. Trata-se, antes, de uma afirmação do potencial estético de elementos vernaculares, através de procedimentos diversos, contemplados pelos despretensiosos e abrangentes verbos propostos por Pedro Nery nesta curadoria. 

Sem Título, 1995, Impressão sobre papel.  Performance na Praia de Ondina, Salvador, BA, 1995 Sem Título, 1995, Impressão sobre papel. Performance na Praia de Ondina, Salvador, BA, 1995

Particularmente instigante na montagem de “Marepe: estranhamente comum” é o privilégio concedido às modulações perceptivas que o artista propõe a partir de objetos associados ao cotidiano das classes trabalhadoras. A primeira obra que vemos ao adentrarmos o espaço expositivo, a Cabeça acústica (1995), lança mão de bacias metálicas, corriqueiras na realidade de lavadeiras, e propõe uma experiência marcada pela alteração da percepção auditiva; no fim do percurso, somos convidados a olharmos para fora do espaço expositivo utilizando óculos de solda, que transformam nossa percepção das cores e nos apresentam uma paisagem de tonalidades psicadélicas (Verde que te quero verde, 2019). Mas carga poética dos experimentos perceptivos de Marepe vai além, não se restringindo ao despertar de nossos sentidos. As séries de fotografias Doce céu de Santo Antônio, apresentam o artista comendo algodão doce mas, em paralaxe – fotografado em contra-plongée –, o artista alimenta-se de nuvens. 

Satélite Baldio, 2005, plastic and metal, approx. 200 x 340 x 310 cmSatélite Baldio, 2005, plastic and metal, approx. 200 x 340 x 310 cm

Este percurso pela produção de Marepe, permeado por experiências que colocam em xeque a percepção corriqueira do mundo, reverbera na colocação de aspectos recorrentes na recepção crítica de sua obra sob suspeita. Dentre tais aspectos, dois nos chamaram a atenção: a hipertrofia do contexto local de Santo Antônio de Jesus na compreensão de uma poética em que o imaginário desempenha um papel crucial e irredutível a quaisquer coordenadas geográficas; e o apelo a um glossário forjado pela arte conceitual que negligencia a separação entre uma prática e seu sentido, confundindo as Nécessaires  – cada vez mais necessárias – de Marepe com ready-mades.

Marepe: estranhamente comum

Curadoria de Pedro Nery

Visitação até 28 de outubro de 2019

De quarta a segunda, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h

Pina Estação – Largo General Osório, 66, 4º andar – Luz

Gratuita todos os dias.

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