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O Elefante e Ulysses Grant

Decidimos ficar a beber uma cerveja no final de um dia de rodagem do filme “O Herói”, dirigido por Zezé Gamboa. Estávamos na Ilha de Luanda onde tínhamos filmado em horário misto, das duas da tarde até à uma da manhã. Parámos o carro junto de uma barraca deixando a porta aberta para continuarmos a ouvir a cassete pirata que tocava no auto-rádio. No grupo, os angolanos bebem cerveja importada, Super Bock; os estrangeiros bebem cerveja nacional, Cuca, cada um saboreando a frescura exótica do seu ponto de vista, enquanto falamos à sombra da madrugada tranquila de dia de semana.

Que não nos falte a cerveja nas alturas em que só ela serve o momento na perfeição.

Como é uma bebida popular de grande consumo que exige poucos recursos industriais, quase todos os países têm produção nacional de uma ou várias qualidades. Há marcas e tipos de cerveja que não acabam, algumas delas baptizadas a partir de grandes ou pequenos eventos históricos em África: dramas, comédias ou tragédias, conforme o exotismo do ponto de vista de cada um.

Fundada no Quénia em 1922, a Tusker intitula-se a primeira cerveja do Este africano. Em 1923, George Hurst, um dos seus fundadores, foi morto por um elefante durante uma caçada. Os protagonistas deste acontecimento tiveram sortes diferentes, o fundador George, caiu no esquecimento, o elefante deu o nome à cerveja e a imagem à marca. Em inglês, tusker aplica-se a elefantes com grandes dentes, que é o que figura no rótulo, a silhueta de um elefante sobre fundo amarelo, Tusker – Finest Quality Lager.

Quando vi pela primeira vez a cerveja moçambicana 2M começou o mistério sobre os 2 emes do rótulo. Várias vezes perguntei que sigla era aquela sem obter resposta. Em letras mais pequenas: Mac-Mahon. Talvez o nome de alguém. Lido à mesa de uma esplanada em Maputo, a sonoridade remete mais para um curandeiro dos subúrbios que para nome de chefe de estado. Aparências que iludem, Mac-Mahon foi Presidente da República francesa, e em 1875 decidiu a favor de Portugal, contra os planos expansionistas de Inglaterra para controlar o porto de Lourenço Marques e região sul de Moçambique. Muitos anos depois, em jeito de agradecimento, Portugal retribuiu: Patrice de Mac-Mahon foi imortalizado nos rótulos da cerveja 2M, até hoje. Num design para lá de retro, um tosco brasão vermelho e preto com o nome de família, ladeado por espigas de trigo a fermentar, 2M – Finest Quality Beer.

Seguindo esta lógica de retribuição, poderia haver uma cerveja na Guiné Bissau chamada UG, porque cinco anos antes da decisão de Mac-Mahon, o Presidente norte-americano Ulysses Grant também arbitrou a favor de Portugal, contra as pretensões inglesas sobre Bolama, arquipélago dos Bijagós e litoral guineense.

Para a História ficaram, sem grandes objecções, muitas fronteiras com as quais os europeus dividiram África entre si, assim como rótulos de cervejas que vão à mesa de qualquer freguês.

Ao longo dos anos, esqueci a rotina da burocracia e o tempo de espera que implicava a passagem de fronteiras terrestres na Europa. Pareceu um regresso ao passado voltar a ter em atenção os dias e horários para circular entre países. Evitar finais e inícios de férias escolares. Nos fins de semana e feriados, fazer contas para chegar antes das filas engrossarem, caso contrário, muitas horas iremos passar na espera para atravessar a fronteira entre Moçambique e a África do Sul – de Ressano Garcia para Lebombo – essa linha divisória que Mac-Mahon insistiu em manter para contrariar a hegemonia inglesa no sul de África.

Quando os acessos à fronteira congestionam formam-se filas enormes de gente, passo a passo para cumprir os trâmites nos vários guichets dos serviços de fronteira, de um lado, e depois do outro. Filas de carro, quilómetros de pára, arranca, pára, arranca. Toda a documentação: passaportes, vistos, seguro do carro para preencher o extenso formulário do veículo, dinheiro nas duas moedas para pagar taxas e carimbos. Nesta fronteira, os horários alargaram entretanto, mas não faz muito tempo que só abria das seis da manhã às seis da tarde.

Embora as fronteiras na Europa não estejam tão escancaradas como prometeram na publicidade, são travessias incomparavelmente mais simples que a passagem de fronteiras terrestres em África. Os processos burocráticos e lentos favorecem o recurso ao suborno para agilizar processos, regras discricionárias, expediente mais caro para brancos; limites à quantidade de produtos que se podem trazer do outro lado, ou simplesmente as filas intermináveis, e o pior de tudo, ter que dormir “do outro lado” se chegar tarde demais: fronteira encerrada.

Alguns esforços no sentido de reduzir o período em que as fronteiras estão encerradas resultam um pouco por todo o lado, a economia e os cidadãos agradecem. Mas também há fronteiras irremediavelmente fechadas no continente africano, consequência de desavenças sem solução à vista, enquanto outras vão fechando e abrindo ao sabor do equilíbrio político de vizinhança.

Numa carrinha de produção, a típica Hiace, fomos até ao bairro de Mavalane, em Maputo, onde fica o bar do Wilson. A actriz Ana Magaia e eu, queríamos falar com ele sobre a hipótese de trabalhar connosco numa produção americana. No grupo, os nacionais bebem cerveja importada: Sagres e Castle; os estrangeiros bebem cerveja moçambicana: Laurentina e 2M. Cada um saboreando a frescura exótica do seu ponto de vista, enquanto conversamos à luz da tarde pacata de fim de semana.

Que não nos falte a cerveja nas alturas em que só ela serve o momento na perfeição.

 

Publicado na revista Fugas do jornal Público em Novembro de 2008

 

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