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Protesto, coletividades e festa – cartazes do período 2010-2016

Quisemos colecionar. 2010 é o ano dos primeiros cortes avultados na despesa pública organizados por um governo PS (PECs), de uma greve geral unitária que envolveu 3 milhões de pessoas e que foi acompanhada, em Lisboa, por uma manifestação dum milhar de pessoas “pelo bloqueio, pela sabotagem”; é o ano da primeira ocupação de São Lázaro, da abertura da Recreativa dos Anjos (RDA69) e da Da Barbuda (Severa); 2010 é o ano de início da crise na periferia europeia desenvolvida enquanto laboratório político neoliberal.
Quisemos organizar uma exposição que juntasse cartazes de protesto do período 2010-2016 em Portugal. De várias centenas, selecionámos 52 cartazes que expomos agora na sala de leitura da biblioteca da Recreativa dos Anos (RDA49). Ficaram de fora do nosso domínio milhares de cartazes. Desde logo, não temos a CGTP, os partidos, a publicidade (quando incluiu conteúdos de protesto) e incontáveis eventos e coletivos não apanhados pelo nosso radar. Para mais, foi a região de Lisboa que concentrou a nossa atenção.

Olhando agora para as paredes da sala vemos um espaço político e de gosto, que constitui uma visão particular da autonomia política ao longo destes sete anos. Para além da dimensão memorialista, patente, por exemplo, no cartaz do 1º de Maio libertário em Setúbal (2011) onde a polícia descarregou balas de borracha sobre manifestantes e transeuntes indefesos, ou historiográfica, quando observamos com algum detalhe a produção de coletividades como a Da Barbuda ou o RDA, é possível observar no conjunto exposto uma dinâmica de evolução e mutações no protesto. De uma primeira época de protestos vigorosos, até ao final 2012, com uma dimensão de massas e de transformação do quadro da correlação de forças na sociedade portuguesa, passa-se a uma fase de emudecimento, mas continuidade, que vem a ser por fim abandonada e substituída por formas de protesto significativamente diferentes. O protesto passa a estar ligado a causas pontuais e específicas, de menor presença nas ruas, com novas linguagens e as comunidades que o organizam perdem a transversalidade desenvolvida entre 2010 e 2012.
A escala do político reduz-se, sim, mas será necessário indagar a qualidade dessa redução. O entorpecimento e o desalento dos últimos anos possibilitou um tempo de pausa, reflexão e recolha de materiais. Sentados a uma mesa limpamos as armas.
Por fim, esta exposição é também o início de um arquivo, em papel, da imagem de todas as fúrias e formas de vidas companheiras. Todos os materiais recebidos estão agora disponíveis para consulta e a todos desafiamos a participar na construção deste arquivo do presente.

EXPOSIÇÃO, organizada por Catarina Leal e Miguel Carmo, INAUGURA A 25 DE MARÇO NA BIBLIOTECA DO RDA Regueirão dos Anjos 49, Lisboa


 


Agradecimentos:
ATR, Alejandro Levacov, Andreia Farinha, Bicão, Boesg, Bruno Caracol, Catarina Rodrigues, Catarina Santos, Da Barbuda, Daniela Rodrigues, Disgraça, Escola da Fontinha, Exército Dumbledore, Eva Baudry, Fernando Rosa, GAIA , Gonçalo Romeiro, Gui Castro Felga, Guilherme Luz, Guilhotina.info, Interpolação Feminismos, Jornal MAPA, José Smith Vargas, Júlia Vilhena, Laranjinha, Luísa Homem, Mara Sé, Mariana Pinho, Manuel Bivar, Miguel Ângelo, Odair Monteiro, Oficina Arara, Paulo Andringa, Patafísicos, Pedro Feijó, Pedro Mota, Pedro Murteira, Pedro Rita, Ricardo Ventura, RDA, Rita Hermínio, Rui Silva, Sofia Andringa.

 

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