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Sobre a exposição “Angola Figuras de Poder”

Se o escritor e poeta francês Paul Valéry ainda vivesse, ele sô teria que atravessar a rua: aquela que foi a sua casa está mesmo defronte do museu Dapper. Durante meses, ele poderia entrar, visitar minuciosamente a exposição, compreender como é que nela o poder político, o poder mágico-religioso e o poder artistico e cultural estão representados. Antes de sair do museu, Paul Valéry poderia ir também  ao  restaurante e comer um “calulu à la française”: e essa hoje muito provavelmente já nem seria até uma hipótese, mas sim um facto, por causa do acontecimento da exposição “Angola, figuras de poder”.

A exposição

Numa iniciativa da Embaixada de Angola em França, com o patrocínio da Total E&P Angola, concebida e produzida por Christianne Falgayrette-Leveau, directora do Museu Dapper, Angola, figuras de poder, a exposição é a maior deste género realizada na Europa nos últimos quinze anos e acontece num dos museus que é uma das vitrinas principais da arte e das culturas da África e do Caribe e as suas respectivas diásporas.

Visitando as salas da exposição, o anfiteatro, a livraria e o restaurante do referido museu, como tão bem afirma Miguel da Costa, embaixador de Angola em França “a sociedade francesa e especialmente os parisienses, assim como os amantes da arte e os estudiosos da arte africana terão a oportunidade de ver reunidas, como nunca antes, artefactos artísticos culturais que testemunham o génio criador dos povos e culturas de Angola”.

Se antes, para quem fosse à livraria do museu encontrava nas suas estantes sômente a tradução, feita pelo falecido Michel Laban, do livro Quem me dera ser onda de Manuel Rui Monteiro, com Angola, figuras de poder os seus visitantes poderão encontrar também o belo catálogo da exposição, com mais de trezentas páginas e em que aparecem imagens da excepcionalidade do património artístico e cultural angolano.

O catálogo de Angola, figuras de poder traz também uma série de textos muito especializados e fruto do trabalho de uma série de reconhecidos investigadores como, por exemplo, Manzambi Vuvu Fernando (Ministério da Cultura de Angola), Manuel Gutiérrez (Universidade Sorbonne),  Boris Wastiau (Museu de Etnografia de Genebra), Manuel Jordán e Bárbaro Martinez Ruiz da Stanford University, Viviane Baeke (Museu Real da África Central de Tervuren), Mario do Rosario Martins e Maria Arminda Miranda (Universidade de Coimbra).

Quatrocentos metros quadrados de superficie, arredor de cento e quarenta obras de arte e ou artefactos culturais provinientes de mais de dez museus de Portugal, Bélgica, França, Suiça, incluindo também peças cedidas à titulo de empréstimo pelo Museu Nacional de Antropologia de Luanda, mesmo antes da sua inauguração, mereceram já a atenção do prestigiado jornal Le Monde que publicou “La tout-puissance des Cokwés” (Philippe Dagen. 06/11/2010), em que o articulista é peremptório em afirmar que:

“Contrariamente à maior parte das exposições consagradas a África, Angola… não é somente uma exposição etnográfica. Dentre as cento e quarenta obras que ela apresenta pela primeira vez em Paris, muitas só se compreenderão no contexto da história política, diplomática e económica” do país.

Uma constatação, de resto, certificada também por “Angola universalisé”, a grande reportagem que os jornalistas Augusta Conchiglia e Bachar Rahmani assinam na revista Afrique-Asie deste mês, onde o último deles designa a exposição de “etno-artística”, certamente em referência à presença de várias obras de António Ole na amostra, numa prova do diálogo fecundo entre a tradição e a contemporaneidade.

António Ole, Margem da Zona Limite, 1994-1995 Installation, Coleção particularAntónio Ole, Margem da Zona Limite, 1994-1995 Installation, Coleção particularAngola, figuras de poder é muito mais do que uma exposição etnográfica também por outras razões: tem um programa de animação cultural que inclui debates, palestras, sessões de cinema, espectáculos e concertos, em que participarão também criadores e ou artistas de países com fronteiras com Angola porque, em rigor, realça a ideia de uma matriz cultural que não se circunscreve exclusivamente a herança colonial, porque revisita os universos culturais de herança pré-colonial e as suas tipificações mais elásticas.

“Angola Figuras de Poder”: os antecedentes e novas dinâmicas

Pelo seu espírito podemos considerar que Escultura Angolana, memorial de culturas, outra amostra que o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, sob orientação de Marie-Louise Bastin realizou em 1994, no âmbito dos programas de Lisboa, capital europeia da cultura, é o seu antecedente imediato. Sabendo da homenagem que aquela já célebre investigadora belga acaba de merecer em Luanda é coisa para dizer que o trabalho dela está destinado a atravessar as cortinas do olvido.

Mas, Angola, figuras de poder tem uma magnitude bem maior, por um lado, pela aceleração científica e técnica que o mundo assistiu nos últimos anos, em termos de processamento e gestão dos arquivos de conhecimento, que facilita reunir maior informação em muito menos tempo e, por outra, porque mesmo antes de ter sido inaugurada, com mais de oito mil entradas nos buscadores de informação na internet, o impacto mediático é enorme.

No entanto, de 1994 aos dias de hoje,  com maior ou menor visibilidade, assistimos também outras  exposições como Metáforas Angolanas. Paris, 2001, Tons e Texturas da Angolanidade. Lisboa e, ainda no ano passado, Luanda, smooth and rave. Bordeaux, 2009: essas foram exposições de arte, artefactos e expressões artísticas contemporâneas e muito circunscritas, seja ao âmbito da diplomacia cultural ou, no caso da última, à participação pontual num evento internacional.

Com Angola, figuras de poder a dinâmica é outra: a exposição acontece no mesmo momento em que, em França, acontecem as grandes exposições da temporada outono-inverno-primavera, como as de Jean Michel Basquiat no Museu de Arte Moderna, a de Moebius na Fundação Cartier,  a de Arman no Museu Centro de Arte George Pompidou ou a de Monet no Grand Palais.

Por isso e por acontecer  em Paris, cidade-museu que por si só tem um efeito multiplicador, ao mesmo nivel de divulgação e de visibilidade das suas semelhantes, ao constar dos guias turísticos e do programa dos museus, rede de hotéis, jornais e websites, sem menosprezar o patrocínio da Radio França Internacional.

Consagração e mercado internacional de arte

De um modo mais geral, Angola, figuras de poder é uma exposição que está em perfeita consonância com os tempos ao pretender evitar hierarquias ou maiores diferenças entre o universo antes exclusivo da Etnografia e o sistema das artes propriamente dito, ao navegar numa espécie de Antropologia da arte.

Em rigor e sublinhando a sua especificidade, é, também, o reflexo da consagração no mercado internacional tanto do incalculável valor da arte tradicional angolana como do labor de António Ole como artista em constante renovação, com uma obra artística que reflecte quarenta anos de trabalho de muito nível.

E, verdade seja dita, de algum modo, as obras de arte reunidas em Angola, figuras do poder beneficiam também, de um lado, do impacto que há cinco meses teve a venda da Colecção Anne et Jacques Kerchache na casa Drouot, uma das maiores casas de leilão de obras de arte, onde a peça N°289 designada “Roi Tshokwé jouant de la sanza”, que esses distinguidos coleccionadores adquiriram numa venda da Christie’s, em Junho de 1979, atingiu o valor de um milhão e duzentos mil euros.

Por outro lado, o facto de António Ole ter exposto durante o verão passado, em Berlim,  a maior das suas obras até hoje realizadas intitulada O mundo inteiro/geometria transitória, composta por uma série de contentores, no âmbito do projecto Who knows tomorrow, dos comissários de arte Udo Kittelmann, Britta Schmitz e Chika Okeke-Agulu, dá uma ideia da dimensão internacional do trabalho deste artista angolano.

António OleAntónio OleNo projecto Who knows tomorrow participam também outros quatro artistas africanos de créditos confirmados como El Anatsui, Zarina Bhimji, Yinka Shonibare e Pascale Marthine-Tayou e que, de um modo geral,  fazem que o sonho de um eixo cultural entre Paris e Berlim, de algum modo, tenha vibre  uma vez mais.

Programa de actividades no âmbito da exposição

Confiando na adesão comum a todas as exposições que organizam, o museu Dapper tem já agendadas uma série de actividades, sendo que entre as terça-feiras e as quinta-feiras estarão programados debates e palestras, às sexta-feiras serão os dias de cine-clube, enquanto que nos sábados e nos domingos, normalmente, realizar-se-ão os concertos e os espectáculos.

No que a encontros e debates se referem, no dia dez de novembro, às dezanove horas deverá acontecer a palestra sobre A dinâmica das máscaras Cokwé de Manuel Jordán, da Stanford University. No sábado dia 13, haverá a  mesa redonda  sobre  o Diálogo entre a tradição e a modernidade com Boris Wastiau (Museu de Etnografia de Genebra), Françoise Monnin (Historiadora de Arte) e António Ole (Artista Plástico).

Nas primeiras sessões de cinema estarão  no dia vinte e seis de novembro, às 20h30, o filme O héroi de Zézé Gambôa, seguido de mesa de debate na presença do realizador, Catherine Ruelle e Makéna Diop. Enquanto que, a três de dezembro, a mesma hora, realizar-se-á a apresentação do filme Na cidade Vazia de Maria João N’ganga e o debate será conduzido por Catherine Ruelle.

Dois espectáculos estão já na grelha de programas, a saber: em todos os domingos do mês de Novembro haverá,  às 15h, Si La Fontaine parlait africain,  o espectáculo de Jorus Mabiala (República do Congo), enquanto que nos meses de Dezembro e Janeiro, Le Lièvre et l’Avion, um espectáculo de Roch-Amédet Banzouzi et d’Emmanuel Letourneux.

Se o escritor e poeta francês Paul Valéry ainda vivesse, ele sô teria que atravessar a rua: aquela que foi a sua casa está mesmo defronte ao museu Dapper. Durante meses, ele poderia entrar, visitar minuciosamen-te a exposição, compreender como é que nela o poder político, o poder mágico-religioso e o poder artistico e cultural estão representados.

Antes de sair do museu, Paul Valéry poderia ir também ao restaurante e comer um “calulu à française”: e essa hoje muito provavelmente já nem seria até uma hipótese, mas sim um facto, por cau- sa do acontecimento que é a exposição “Angola, figuras de poder”.

 

De Novembro de 2010 a Julho 2011, no Museu Dapper, em Paris

 

artigo publicado no jornal angolano O País

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