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Visão Yanomami

Visão Yanomami, de Cláudia Andujar, dá a conhecer a obra de uma das artistas mais importantes da atualidade. Autora de um vasto trabalho fotográfico, maioritariamente conhecido pela sua relação com o povo Yanomami na Amazónia brasileira, a partir de 11 de Fevereiro até 15 de Abril, o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa apresenta um pequeno mas contundente recorte daquilo que o visitante pode ver na Galeria Cláudia Andujar, no Instituto Inhotim (Brumadinho, Minas Gerais, Brasil).

Visão Yanomami faz parte da programação “Passado Presente – Lisboa Capital Ibero Americana da Cultura 2017”.

Êxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cmÊxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cm

Muitas razões levaram Claudia Andujar à Amazônia – seu interesse pelos povos indígenas vem desde os anos 1950 e 1960, quando fotografou os Carajá, os Bororo e os Kayapó Xikrin, no Brasil Central. Em 1970, quando é escalada pela revista Realidade para participar de um número sobre a Amazônia, tem seu primeiro contato com os Yanomami. Essa incursão também a leva a diferentes partes do território, criando um corpo de obra sobre natureza ainda hoje pouco conhecido.

Os Retratos presentes nesta exposição foram feitos na região do rio Catrimani (Wakata-ú), onde, em diferentes aldeias, Claudia Andujar passou suas mais longas temporadas vivendo com os Yanomami. Um dos resultados desta imersão foi o aprofundamento da prática retratística, um dos principais aspectos de toda a sua obra.

Para falar num método, é preciso entender que a longa permanência entre os Yanomami é a condição sine qua non do trabalho. Neste sentido, desfaz-se a separação rígida entre fotos posadas e instantâneos, já que a artista buscava uma forma de comunicação em que sua presença fosse incorporada pelo outro. Assim, em seu vasto espólio há desde retratos feitos durante o transe xamânico até um conjunto de ações que o fotografado desempenha para a câmera. A busca é por aquilo que é pessoal em cada retratado, incluindo rosto e corpo, mas também ornamentos que conferem pessoalidade na construção do indivíduo. Relembrando hoje o momento de feitura desses retratos, Andujar diz: “Essencialmente eu procurava penetrar e entender o pensamento da pessoa. E eu consegui encontrar o que procurava. O olhar, sem dúvida, é importante para mim. Ele é uma forma de se comunicar com o outro, mas pode ser também um gesto o que leva a este momento em que se sente que está em comunicação íntima com as pessoas. Uma ideia de beleza também me interessava – acho os Yanomami muito bonitos. Tivemos um calor humano entre nós. Mas isso levou tempo. E quando falo de tempo estou me referindo a anos.”

Gozo, da série Reahu 1974-76 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cmGozo, da série Reahu 1974-76 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cm

Em 1971, Claudia Andujar deixa a carreira no fotojornalismo para se dedicar  a um projeto autoral de grande escala. Ela inicia a elaboração de um longo ensaio sobre os Yanomami, que dura até 1977, com sua expulsão da área indígena e enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Para a artista, tratava-se de fazer um registro para a posteridade de uma população de contato recente, colocada em risco por planos acelerados de penetração do território Amazônico por parte do governo militar. Yanomami é um etnômino (nome dado a um povo) adotado por antropólogos que quer dizer ser humano em oposição a napëpë, que quer dizer estrangeiros. O aprendizado da cultura indígena é fundamental no trabalho de Andujar, e isso está patente nesta exposição através de algumas imagens da vida na casa comunitária (shabono) e muitas delas registram o reahu, uma grande cerimônia que envolve várias comunidades, ingestão do alucinógeno yakoana, danças, abraços, transes.  As fotografias buscam transmitir esse aprendizado por meio do uso da luz, que simboliza o mundo dos espíritos (xapiripë) evocados pelos xamãs.

Num período de pouco menos de dez anos, Andujar fez uma longa imersão na cultura Yanomami e se engajou no ativismo pelos seus direitos, com a criação da CCPY – Comissão Pró-Yanomami. Como referido, publicou em várias revistas da época, tais como o número especial Amazônia da revista Realidade, publicado em 1971, que traz reportagem de capa com as primeiras fotografias feitas na aldeia do Maturacá. O livro Amazônia, parceria com o fotógrafo George Love e publicado em 1978, que é um mergulho pelas paisagens da Amazônia  e tem imagens feitas pela artista na região do rio Catrimani. E do mesmo ano são Yanomami  e Mitopoemas Yãnomam, este em parceria com o missionário Carlo Zacquini, que retratam em fotografias e desenhos indígenas a cultura deste povo. Outra publicação importante na carreira de Andujar é Genocídio do Yanomami: Morte do Brasil, publicado pela CCPY para acompanhar  a exposição homônima que aconteceu no MASP, em São Paulo, em 1989,  no auge da campanha pela demarcação da terra indígena.

Mingaú, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cmMingaú, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cm

Entre 1981 e 1983, Claudia Andujar produziu uma série de retratos – Marcados -, feitos em circunstâncias muito diferentes daqueles nos anos 1970. Como parte do trabalho da CCPY, ela criou um grupo com a participação de médicos da Escola Paulista de Medicina, que percorreu quase a totalidade do território Yanomami com o objetivo de entender a situação de saúde daquelas populações. Andujar tinha como tarefa a coletar informações, identificar e retratar cada um dos pacientes atendidos. Como os Yanomami não têm por cultura o uso de nomes próprios, usava a técnica de lhes identificar “marcando-os” com números. Os dados levantados serviram de base para o Relatório Yanomami (1982), documento fundamental para a demarcação da Terra Indígena, que continua a ser uma questão de grande atualidade no Brasil. Muitos anos depois, Andujar resolveu editar essas imagens como uma vasta série de retratos, agrupados por regiões. Para ela, este trabalho, talvez sua mais importante série em torno dos conflitos causados pelo contato, se relaciona diretamente com sua biografia e a experiência com os  estigmas racistas que viveu durante a perseguição dos nazistas a seus familiares  na Transilvânia. “Os judeus eram marcados com a estrela de Davi para morrer.  Eu estava marcando os Yanomami para que eles sobrevivessem”, conta Andujar.

Curadoria Inhotim

Êxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cmÊxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cm

Êxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cmÊxtase 4, da série Reahu 1974 prova atual, gelatina e prata 60 x 90 cm

Claudia Andujar nasceu com o nome de Claudine Haas em Neuchâtel, na Suíça, em 12 de junho de 1931. Filha de mãe suíça protestante e pai judeu húngaro, cresceu em Oradea, na Transilvânia, onde viveu até os 13 anos. Após a família  do pai ser levada para campos de concentração nazistas, fugiu com a mãe para  a Suíça, onde viveu por três anos, até mudar-se para Nova Iorque, onde começa  seu interesse por arte. Em 1955, se muda para São Paulo, onde vem encontrar-se com a mãe. Na chegada ao Brasil, Andujar começa a fotografar “como forma de se comunicar”, registrando comunidades caiçara no litoral paulista e viajando por outros lugares do país. Nos anos 1960, se dedicou ao fotojornalismo e voltou várias vezes a Nova Iorque, onde se familiarizou com o universo da fotografia artística e fez suas primeiras exposições. A partir de 1972, iniciou sua pesquisa junto aos Yanomami, buscando um trabalho aprofundado de documentação da vida tradicional. Em 1978, após ter sido expulsa no ano anterior da área indígena pela Funai, funda a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), trabalho que resultou na demarcação e homologação da Terra Indígena Yanomami e Ye’kuana, em 1992. Desde o final dos anos 1980, Andujar faz exposições em que revisita seu arquivo fotográfico, usando suas imagens com o objetivo primordial de lutar pelo direito dos Yanomami à sua terra e cultura.

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